Fim do mundo?

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Quando eu era menino e ouvia conversas sobre o fim do mundo, acreditava e estremecia de pavor. Era fantasia de criança, mas os grandes também acreditavam. Os cristãos, por exemplo, têm um livro sagrado todo ele dedicado a descrever os horrores do fim do mundo, o dia do juízo final, justos para os céus, injustos para o fogo eterno: o livro do Apocalipse. Um guia turístico do México, explicando-me uma pirâmide, disse-me que os maias e os astecas acreditavam que o universo era regido por um calendário segundo o qual o ciclo do tempo se completaria em 49 anos, que é 7 vezes 7. Aí, quando chegava o finzinho do ano 48 e o mundo deveria acabar em um ou dois dias, todos paravam, ninguém trabalhava ou cozinhava, esperando a catástrofe terrível, e até se punham a ajudar os deuses, destruindo tudo o que havia. Entretanto, o fim não acontecia; concluíam, então, que os deuses haviam resolvido começar tudo de novo, punham-se a rir e a dançar sobre as ruínas do mundo que terminara e tratavam de construir um mundo novo que começava do nada.
Mas no mundo ocidental somente os supersticiosos, os místicos, os religiosos e os profetas — como Nostradamus — acreditavam no fim do mundo. As pessoas de mente científica sabiam que o mundo era sólido e não teria um fim catastrófico com tsunamis e terremotos. Que eu saiba, só houve um homem que, sem prever um fim catastrófico, percebeu que havia algo errado com o nosso mundo: os alimentos cresciam em progressão aritmética enquanto as bocas se multiplicavam segundo uma progressão geométrica, acontecendo, então, uma tragédia demográfica: Robert Malthus.
Era assim… Mas, de repente, os homens se deram conta de que os absurdos da nossa civilização eram mil vezes mais graves que aqueles percebidos por Malthus e que havia a possibilidade real de que a Terra, tal como a conhecemos, tivesse um fim.
Por que as Nações Unidas convocaram, em Copenhague, a Conferência 2009 sobre mudanças climáticas? Porque políticos, economistas, cientistas e líderes do mundo todo estão vendo a catástrofe que se aproxima e estão tentando chegar a acordos sobre a diminuição dos gases causadores do efeito estufa que provocam o aquecimento global. Eles se reuniram na capital da Dinamarca para falar sobre o fim do mundo, cientificamente: a Terra está se transformando em um forno e nós estamos dentro dele sem que haja uma porta por onde sair…
James Lovelock prevê que, no final deste século, a temperatura média nas regiões temperadas aumentará 8°C e, nos trópicos, até 5°C. Esse aumento de temperatura tornará a maior parte das terras agriculturáveis do mundo inabitáveis e impróprias para a produção de alimentos. Escrevendo no jornal britânico The Independent em janeiro de 2004, ele afirmou que, como resultado do aquecimento global no final do século 21, “bilhões de nós morrerão e os poucos casais férteis que sobreviverão estarão no Ártico onde o clima continuará tolerável”. “E o pior está por acontecer. Ecossistemas inteiros serão extintos e os sobreviventes terão de se adaptar a um clima infernal.” (Folha de S. Paulo, caderno Mais, 22/01/06, p.9). Em janeiro de 2006, falando ao jornal The Independent, ele disse que “o mundo já ultrapassou o ponto de não retorno quanto às mudanças climáticas e a civilização como a conhecemos dificilmente irá sobreviver”. Ele acredita que os esforços para conter o aquecimento global já não podem obter sucesso completo e a vida na Terra nunca mais será a mesma.
Angra dos Reis é, pois, a Terra chorando pelo que lhe fizemos.


