ENCHENTE DE RICO E ENCHENTE DE POBRE
Quem já não se divertiu com as inúmeras piadas sobre o pobre e o rico. São diferenças salientadas de forma jocosa, alegre e infelizmente, às vezes, verdadeiras. Vamos lembrar-nos de algumas delas: “Rico com uniforme: coronel, pobre com uniforme: carregador de malas; Rico com pistola: precavido, pobre com pistola: assaltante; Rico com maleta: executivo, pobre com maleta: traficante; Rico com chofer: milionário, pobre com chofer: preso; Rico com sandálias: turista, pobre com sandálias: marujo; Rico que come muito: se alimenta bem, pobre que come muito: morto de fome; Rico jogando bilhar: elegante, pobre jogando bilhar: viciado; Rico lendo jornal: intelectual, pobre lendo jornal: procurando emprego; Rico se cocando: alérgico, pobre se cocando: sarnento; Rico correndo: esportista, pobre correndo: ladrão de carteira; Rico vestido de branco: doutor, pobre vestido de branco: sorveteiro.” Após as inúmeras risadas vamos parar para refletir um pouco.
Exageros a parte, qual a matéria prima para essas piadas? Bem, como afirma Platão, na República, a democracia não nasce das pedras. As piadas acima nascem da realidade que nos cerca. Realidade essa que está envolta não apenas de tiradas engraçadas, mas também de preconceito, de desdém de uma pseudo superioridade por parte de alguns que possuem o poder econômico e das situações onde a aparência trás consigo a filiação e o caráter. As pilhérias retratam uma dicotomia cruel, e muitas vezes, por ser tratada dessa forma banal, passa despercebida servindo de fundamento para o status quo.
Pois é, gostaria de contar para vocês mais uma dessas piadas que reforçam o repertório: pobre quando a chuva derruba sua casa, vai para escolas e abrigos públicos. Quase sempre super lotados, sem higiene e sem um mínimo de conforto. A palavra “Dignidade” é desconhecida para quem abriga e para quem é abrigado. Rico, quando a chuva derruba, não me desculpem, invade sua nobre residência, vai para hotéis e pousadas. Muito conforto, quartos para cada família e a palavra “Dignidade” é sempre um termo de ordem.
Que tal essa piada, engraçada, não é? Pode até não ser, pois meus talentos humorísticos não permitem. Mas vamos supor que seja. Qual a matéria prima retirada para tal piada? Ora meus amigos, como afirmei acima, a matéria é retirada da realidade. Aqui em nossa capital da “qualidade de vida” as diferenças passaram para um estágio assustador. Os proprietários de casas inundadas do conjunto Costa do Sol, em Aracaju, tiveram o direito, determinado pela justiça, de ficarem hospedados em hotéis e pousadas perto das residências afetadas e financiadas pela Prefeitura Municipal de Aracaju. Uma medida provisória até a PMA conseguir casas para alugar (o valor do IPTU pago pelos moradores está valendo à pena). No entanto, foi uma ordem judicial, ou seja, houve um entendimento do judiciário aprovando a alegação dos moradores, ou quem sabe, de algum morador com pretensões políticas…
Amigos, não estou afirmando que os moradores do conjunto são ricos, apenas estou salientando que existe uma diferença econômica entre os moradores do Costa do Sol e os moradores dos bairros pobres. Diferença que cabe muito bem nas pilhérias citadas acima. Mas existe algo em comum entre eles: a palavra desabrigado. Segundo o dicionário: que não tem abrigo ou exposto às intempéries. Curioso é que a semelhança está apenas na ordem das letras, pois a palavra adquiriu um sentido diferente a depender da classe social. Não sei como a nova lei ortográfica deixou passar despercebido. O fato é que até na desgraça o rico tem um modo só seu, a custo alheio, de enfrentar as dificuldades.
JOELSON SANTOS NASCIMENTO