Por que as drogas viciam

(c) iStockphoto/alacatr

Já falamos sobre drogas que podem ser compradas em qualquer padaria, como o cigarro e o álcool. Agora é a vez de falar das drogas ilícitas. Tirando toda a questão legal e social e pensando estritamente na ação dessas substâncias no corpo, não é à toa que tanta gente
se preocupe com estratégias de combate ao consumo de drogas.

Para começar, todas elas agem no sistema nervoso central e são capazes de atuar em um circuito de neurônios responsável pela sensação de recompensa. Ou seja: quando consome uma droga, a pessoa sente um bem-estar e o cérebro entende que ela precisa repetir aquela experiência para manter essa sensação boa. É aí que começa todo o esquema de dependência. Claro que não são apenas as drogas ilícitas que fazem isso com as pessoas. O cigarro, por exemplo, tem um potencial viciante maior do que o de muitas outras drogas. Estudos mostram que cerca de um terço das pessoas que experimenta o tabaco acaba se tornando dependente. Já a cocaína, por exemplo, tem uma proporção de um dependente para cada cinco pessoas que a experimentam. Com a heroína, que é uma das drogas com maior poder de dependência, a proporção é de um para quatro.

No Brasil, as drogas ilícitas mais consumidas são a maconha e a cocaína. Apesar de muita gente defender que maconha não vicia, vários estudos sérios mostram que ela é capaz sim de causar dependência. Mas não é apenas por isso que ela gera preocupação. A maconha pode trazer vários efeitos nocivos ao organismo. Já está provado que seu consumo atrapalha na formação de memória, mesmo quando a pessoa não está sob o efeito da droga. Isso significa maior dificuldade de aprendizado, o que certamente diminui o rendimento escolar e profissional do usuário. Outros estudos já mostraram a relação entre o consumo da maconha e a infertilidade. E, assim como o cigarro, a maconha também aumenta as chances de se desenvolver câncer de pulmão.

Já a cocaína faz estragos ainda mais visíveis. Quando aspirada, ela vai gradualmente atacando a mucosa nasal (revestimento interno do nariz) — em casos graves, são necessárias cirurgias para corrigir essa lesão. Como estimula o sistema nervoso, a cocaína tem efeitos diretos sobre o coração e a pressão arterial. Por isso, eleva-se consideravelmente a chance de infartos, derrames, crises hipertensivas e insuficiência cardíaca. Além disso, por agir diretamente na liberação de neurotransmissores (moduladores do sistema nervoso), o usuário tem aquela sensação de ressaca após o uso, como se fosse uma grande tristeza. Afinal, ele fica sem “estoque” desse tipo de substância no dia seguinte. Isso pode agravar quadros depressivos ou até desencadear um deles.

Hoje há muitos médicos e serviços especializados para dar apoio ao dependente de drogas que quer se tratar. Mas, para que a desintoxicação tenha sucesso, é necessário, primeiramente, que as pessoas percebam que a dependência química é uma doença. O indivíduo que está viciado, muitas vezes, não deixa a droga porque não consegue, assim como um hipertenso não consegue fazer sua pressão baixar só porque quer — é necessário tomar uma série de atitudes e obter ajuda médica para que isso aconteça. O uso de remédios pode atenuar os efeitos da síndrome de abstinência, que surge quando a pessoa interrompe o consumo da droga, diminuindo a chance de recaída. A psicoterapia também ajuda muito nesse momento — muitas vezes, é necessário que a família também entre no processo para que o tratamento seja mais eficaz. Portanto, se você tem um problema de dependência ou conhece alguém que o tenha, tente buscar apoio o mais rápido possível.

    Avalie este blog

     (65.9%)
     (8.4%)
     (3.7%)
     (3%)
     (18.9%)

    Esfera de tags

Biografia

Jairo Bouer

Jairo Bouer

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP –, com residência em Psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria da mesma universidade.
RSSRSS