Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência
tudo se forma e transforma!
(Romance LIII ou Das palavras aéreas. In: Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles)
Palavras surgem, fixam-se na linguagem e com o desuso podem ir para o limbo do dicionário. Exemplos de palavras que não são mais usadas no dia-a-dia encontramos em diversos autores, como Machado de Assis (o vocábulo comborça, que significa amante), Euclides da Cunha (exsicado, que significa ressecado) e vários outros escritores. Vocábulos assim podem identificar uma época, uma sociedade e seus costumes.
À parte o uso ou não de uma determinada palavra, o ser humano por natureza busca o conhecimento, e uma das maneiras de buscá-lo passa pelo significado das palavras. Contrariamente ao que muitos lingüistas pregam, a língua latina pode ser um dos caminhos para se conhecer e se formar palavras em língua portuguesa. Há, logicamente, a consideração de que as palavras passam também pelo estatuto da convenção, pela arbitrariedade de que um agrupamento de letras tomará determinado significado.
Entretanto, quando se ultrapassa essa convenção, podemos perceber que muitas palavras são estabelecidas metaforicamente. O que há entre, por exemplo, as palavras ‘cozinhar’ e ‘precoce’? Nada, de início. Buscando suas origens, tudo. Na filosofia da linguagem, a palavra cozinhar (do latim coquo, coquis – eu cozinho, tu cozinhas) apresenta como sentido básico ‘deixar algo feito, pronto para ingerir’. O radical de cozinhar em latim é coqu. A palavra precoce (praecox, no latim) é formada pelo prefixo pré (prae), que tem o sentido de ‘anterior’, como em pré-vestibular, prever, etc. Além da partícula prae, a palavra precoce tem como radical cox, que é coqu (cozinhar) mudado pelas leis fonéticas. Assim, a palavra precoce significa aquilo que foi cozinhado antes ou primeiramente. Na acepção moderna é aquele que está pronto antes de outras pessoas.
Escrito por Frederico de Sousa.