Arquivo da Categoria ‘Clássicas’

A Ira

No último post, inseri vídeo a respeito da Ira, de acordo com a visão de Sêneca, filósofo do século I d.C. Abaixo traduzo início do tratado sobre a Ira, escrito por volta de 40 a.C.:

Cobraste de mim, Novato, que escrevesse de que modo a ira poderia ser suavizada. Não sem razão a mim que tu pareças de forma particular ter grande medo desta afecção repugnante e cheia de fúria. Em outras afecções, com efeito, existe alguma coisa de manso e brando; esta (a ira) é todo ardor e com o ímpeto do sofrer, arrebatada pela paixão humana de armas, de sangue, de suplícios, ainda que prejudique, indiferente de seu outro, que se lança para os próprios dardos e ávido de vingança e de arrastar o vingador consigo.

Sêneca escreve ao irmão Novato. De início, parece sugerir que o irmão já tenha sofrido do mal ou que receie sofrer deste mal. Interessante notar que a ira parece cegar a quem a possui, ou de outra forma, que é possuído por ela.

Postado por Frederico de Sousa.

Filosofia

Para reiniciarmos as postagens neste espaço, nada melhor que um pouco de filosofia. Verto para o português no momento trechos da obra “Sobre a Ira”, de Sêneca, um dos grandes autores romanos do primeiro século depois de Cristo. Entretanto, nesta postagem deixo três vídeos que falam sobre a ira, de acordo com a visão senequiana.

 

 

 

 

 

Postado por Frederico de Sousa.

Epigrama

Já publiquei aqui algumas epigramas de Marcial, poeta latino do século I d.C. Esse mesmo autor esteve presente à inauguração do Coliseu e é por meio dele que sabemos como foram os primeiros meses de funcionamento da grande arena romana. Volto sempre a ele em meus estudos e traduzo aqui mais duas epigramas:

 

Do livro XI, a epigrama 14:

“Heredes, nolite brevem sepelire colonum:

    nam terra est illi quantulacumque gravis.”

 

Herdeiros, não quereis enterrar o pequeno agricultor:

Pois para ele a terra, por menor que seja, é pesada.

 

A epigrama é um pequeno poema, conciso, breve, mas que sugere uma ampla leitura. Neste poemeto, há uma crítica àqueles que, antes da morte do agricultor, já desejam seus bens. E não é grande coisa o que o agricultor possui, e sim uma pequena terra difícil de ser cultivada (a terra, por menor que seja, é pesada).

João Cabral de Melo Neto, autor brasileiro do século XX, faz, na obra Morte e vida severina, denúncia e crítica bem parecidas com a que Marcial fez no século I d.C.

 

Outra epigrama de Marcial, agora do livro VIII.

“Oplomachus nunc es, fueras opthalmicus ante.

      Fecisti medicus quod facis oplomachus.”

 

 Agora tu és gladiador, antes tinhas sido oculista.

Tu fizeste como médico o que fazes como gladiador.

 

E o que o gladiador deve fazer? Matar. Portanto, quando oculista, …

 

Escrito por Frederico de Sousa.

Amizade

Horácio é autor latino do século I a.C. Fez parte do círculo de Mecenas e é dele a autoria da expressão ‘carpe diem’, tão propagada durante os séculos. Escreveu odes (poesia rimada  de assunto elevado, normalmente escrita em forma dedicatória  de acordo com um estilo e sentimentos nobres), epodos (poemas líricos em que se alternam versos grandes com versos pequenos, de cunho satírico), epístolas e sátiras. Das sátiras, há uma variedade de temas, algumas mais filosóficas e outras mais ferinas. Traduzo abaixo um trecho de sátira de Horácio em que o tema é a amizade:

 

Ac pater ut gnati, sic nos debemus amici

siquod sit vitium non fastidire: strabonem

appellat paetum pater, et pullum male parvos

Parcius hic vivit; frugi dicatur. Ineptus

et iactantior hic paulo est; concinnus amicis

postulat ut videatur. At est truculentior atque

plus aequo liber; simplex fortisque habeatur.

Caldior est; acris inter numeretur. Opinor,

haec res et iungit, iunctos et servat amicos.

(…)

Conmixit lectum potus mensave catillum

manibus tritum deiecit; ob hanc rem,

aut positum ante mea quia pullum in parte catini

sustulit esuriens, minus hoc iucundus amicus

sit mihi?

 

Sátira III, livro I.

E como o pai em relação ao filho assim devemos ser com o amigo: se alguma coisa for vício, não ter repugnância. O pai nomeia estrábico quando o filho é zarolho. Queridinho ao miseravelmente pequeno. Se este amigo vive na maior avareza: que seja chamado econômico. Ele é um pouco tolo e muito vaidoso: pretende parecer agradável aos amigos. Contudo é muito rude e igualmente mais sem limites: franco e corajoso seja avaliado. É impetuoso: seja contado entre os ativos. Julgo que estas coisas não só fazem amigos como também os conservam unidos.

(…)

Embriagado, um mijou na cama ou deixou cair da mesa uma vasilha. Por causa disso ou porque tem fome e pegou antes uma iguaria posta na minha parte do prato, o amigo seria menos agradável para mim?

 

Postado por Frederico de Sousa.

Dissertação

Em dezembro passado defendi na USP minha dissertação de Mestrado. Segue abaixo o resumo do que escrevi. Para acessar o texto completo, clique http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-12022009-143424/

 

A Apocolocintose do divino Cláudio é a desconstrução da apoteose atribuída pelo senado romano a Cláudio, princeps morto em 54 d.C. e penúltimo César da dinastia Júlio-Claudiana. Este texto de Sêneca estrutura-se de acordo com o gênero sátira menipeia, em que se mesclam prosa e verso, coloquialismos e formas cultas, além de intensas relações que se estabelecem com outros textos greco-romanos. Para isso, Sêneca insere fatos da vida de Cláudio e relaciona-os com situações inesperadas no céu, na terra e no inferno, em um percurso fictício que o princeps romano realiza nesta dessacralização. O texto de Sêneca é uma reação ao exílio sofrido nas mãos deste mesmo princeps, a quem o filósofo veio a servir em 49 d.C. Também é uma reação aos desmandos e crueldades perpetradas por Cláudio e uma forma de enaltecer a imagem de Nero, alçado ao governo de Roma após a morte de Cláudio. Esta dissertação de Mestrado compreende uma introdução ao gênero sátira menipeia, tradução com notas da Apocolocintose do divino Cláudio, bem como de um comentário crítico-analítico em que se examinam as intenções de Sêneca nesta invectiva contra Cláudio.

Escrito por Frederico de Sousa.

Plínio, o velho

Deixo neste espaço um pequeno trecho traduzido de Plínio, o velho. Plínio foi escritor, historiador, naturalista, gramático, administrador, oficial romano, e talvez o maior erudito da história imperial romana. Morreu em 79 d.C. nas proximidades de Pompeia, durante a erupção do Vesúvio.

O fragmento abaixo faz parte da extensa obra Historia Naturalis, uma espécie de enciclopédia que trata da Geografia, Cosmologia, Fisiologia animal e vegetal, Medicina, Mineralogia, entre outras matérias. Interessante notar é o trabalho de observação do escritor e o estilo de escrever, muitas vezes mesclando aspectos literários a científicos.

 

História Natural, livro II.

 

[1]   An finitus sit mundus et an unus

1 Mundum et hoc quodcumque nomine alio caelum appellare libuit, cuius circumflexu degunt cuncta, numen esse credi par est, aeternum, inmensum, neque genitum neque interiturum umquam. huius extera indagare nec interest hominum nec capit humanae coniectura mentis.

1 Porventura o mundo seja finito e uno

Foi do agrado nomear de qualquer outro nome o mundo e o céu, sob cuja circunferência todas as coisas passam. É conveniente o poder divino existir e ser tido por verdadeiro, eterno, imenso, nem algum dia gerado nem alguma vez devendo morrer. [Além disso] nem o juízo dos homens interessa investigar as coisas externas nem a explicação da mente humana apodera-se disso.

 

[2]   de forma eius

2 sacer est, aeternus, immensus, totus in toto, immo vero ipse totum, infinitus ac finito similis, omnium rerum certus et similis incerto, extra intra cuncta conplexus in se.

2 Da forma do mundo

É sagrado, eterno, sem limites, todo na totalidade, e antes ele mesmo o todo, infinito e por outro lado finito, certo de todas as coisas e igualmente incerto, fora e dentro de todas as coisas e abrangente em si mesmo.

 

Escrito por Frederico de Sousa.

Epodo

Horácio é um dos grandes poetas da Antigüidade romana. Escreveu Odes, versos que se ocupam do elogio e salientam as virtudes, Sátiras, Epístolas e Epodos. Os Epodos de Horácio são poemas que podem ser considerados como contrários às Odes.

No Epodo abaixo, por exemplo, o eu lírico escreve uma invectiva contra o alho, depois que participa de refeição com Mecenas.

  

Epodo III

Se outrora alguém tenha estrangulado com impiedosa mão o velho pai, que esse alguém coma alho, mais detestável que a cicuta. Ó duras entranhas daqueles que acabam com tudo! Que veneno é este que maltrata minhas vísceras? Acaso sangue de cobra cozido com estas ervas me enganou? (…)

Quando o belo Jasão, o condutor valente dos argonautas, foi subjugar os indomáveis touros, Medéia os membros lhe banhou com o sumo espremido dos alhos antes que as rédeas batessem nos temíveis dragões sobre os ares. Fugindo de Corinto, com tal sumo os vestidos molhava de forma que do seu leito vingava a afronta na rival inocente.

(…)

E se tal veneno prende teu gosto, verás, caro Mecenas, como a terna moça fugindo teus beijos te recusa.

 

Escrito por Frederico de Sousa.

Das palavras

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,

no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência

tudo se forma e transforma!

(Romance LIII ou Das palavras aéreas. In: Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles)

 

Palavras surgem, fixam-se na linguagem e com o desuso podem ir para o limbo do dicionário. Exemplos de palavras que não são mais usadas no dia-a-dia encontramos em diversos autores, como Machado de Assis (o vocábulo comborça, que significa amante), Euclides da Cunha (exsicado, que significa ressecado) e vários outros escritores. Vocábulos assim podem identificar uma época, uma sociedade e seus costumes.

À parte o uso ou não de uma determinada palavra, o ser humano por natureza busca o conhecimento, e uma das maneiras de buscá-lo passa pelo significado das palavras. Contrariamente ao que muitos lingüistas pregam, a língua latina pode ser um dos caminhos para se conhecer e se formar palavras em língua portuguesa. Há, logicamente, a consideração de que as palavras passam também pelo estatuto da convenção, pela arbitrariedade de que um agrupamento de letras tomará determinado significado.

Entretanto, quando se ultrapassa essa convenção, podemos perceber que muitas palavras são estabelecidas metaforicamente. O que há entre, por exemplo, as palavras ‘cozinhar’ e ‘precoce’? Nada, de início. Buscando suas origens, tudo. Na filosofia da linguagem, a palavra cozinhar (do latim coquo, coquis – eu cozinho, tu cozinhas) apresenta como sentido básico ‘deixar algo feito, pronto para ingerir’. O radical de cozinhar em latim é coqu. A palavra precoce (praecox, no latim) é formada pelo prefixo pré (prae), que tem o sentido de ‘anterior’, como em pré-vestibular, prever, etc. Além da partícula prae, a palavra precoce tem como radical cox, que é coqu (cozinhar) mudado pelas leis fonéticas. Assim, a palavra precoce significa aquilo que foi cozinhado antes ou primeiramente. Na acepção moderna é aquele que está pronto antes de outras pessoas.

Escrito por Frederico de Sousa.

Marcial

Há pouco, postei aqui sobre a epigrama. Volto ao gênero textual com um dos grandes talentos da Antigüidade: Marcial. Marco Valério Marcial foi para Roma em 64 d.C., quando a cidade ainda estava sob o poder de Nero. Morreu por volta do ano 103 de nossa era. É de Marcial, por exemplo, os textos que narram as competições e festividades de inauguração do Coliseu.

Seguindo a linha da epigrama, Marcial registra e analisa tudo o que vê, disseca os costumes dos romanos oportunistas, critica a vida de aparência e as máscaras sociais, é implacável na sátira aos tipos humanos. Nesses retratos sociais, na concisão que a epigrama exige, Marcial faz de sua literatura um importante documento histórico de uma época romana. Dele, traduzo dois poemetos, um do livro IX, outro do XI:

Heredes, nolite brevem sepelire colonum:

nam terra est illi quantulacumque gravis.  XI, 14

 

Herdeiros, não queirais enterrar o pequeno colono:

pois a terra, ainda que pouca, é para ele pesada.

 

Na brevidade do poema é possível destacar o apontamento que Marcial faz a respeito do uso da terra pelo pequeno agricultor e das dificuldades para o cultivo, assunto depois de dois mil anos ainda atual. No poema, o vocábulo colonum (colono) dá o tom, pois a palavra tem o significado de ‘uma pessoa que cultiva a terra de outro’. Assim, a luta para o sustento e ainda não ter a própria terra desembocam no vocábulo gravis (pesada), que reforça o fardo carregado pelo colono. Na modernidade, João Cabral de Melo Neto, por exemplo, discute o mesmo tema no célebre Morte e vida severina. Abaixo outra epigrama:

Inscripsit tumulis septem scelerata virorum

‘Se fecisse’ Chloe. Quid pote simplicius? IX, 15

 

Nos túmulos dos sete maridos a celerada Cloe inscreveu:

‘feito por mim’. Quem é capaz de mais sinceridade?

 

Na Roma antiga, era comum quem erguia um túmulo registrar, no próprio monumento, que o fizera. A palavra scelerata (celerada) e a pergunta que faz Marcial na epigrama acima conduzem o leitor para outra interpretação, a de que Cloe é criminosa confessa. Marcial vai além do costume romano e enxerga nessa inscrição tumular a oportunidade de satirizar a viúva Cloe.  A arte da epigrama é, enfim, a arte de notáveis idéias em poucas palavras.

Escrito por Frederico de Sousa.

Ilíada

Embora pairem dúvidas se foi ou não escrita por Homero, é inegável a influência em nossa cultura da Ilíada, livro que narra a história da guerra de Tróia.

Expressões como ‘pomo da discórdia’ e ‘cavalo de Tróia’ fazem parte hoje de nosso vocabulário. O mais interessante é que a idéia de posteridade já é registrada na própria Ilíada. No canto V, Helena dirige-se a Heitor, seu cunhado, da seguinte forma: “Sobre nós fez Zeus abater um destino doloroso, para que no futuro/ sejamos tema de canto para homens ainda por nascer” (Ilíada, tradução de Frederico Lourenço, para a Biblioteca Editores Independentes, 2007).

Escrito por Frederico de Sousa.