Uma licenciatura diferente
Gilvan Müller de Oliveira, UFSC e IPOL
Começou, em novembro de 2009, a primeira licenciatura de uma universidade pública brasileira que não funciona em português.
Na impressionante paisagem do Alto Rio Negro, região mais plurilíngue da América do Sul, a Universidade Federal do Amazonas finalizou a primeira etapa de um curso para 120 indígenas, de 10 etnias, falantes de uma das três línguas oficiais do município de São Gabriel da Cachoeira: o tukano, o baniwa e o nheengatu (ou língua geral).
Tive a oportunidade de coordenar os trabalhos no Polo de Taracuá, onde o Rio Tiquié desemboca no Rio Uaupés e onde se encontram falantes de tukano pertencentes a diversas etnias. O próprio vestibular já foi diferente: o candidato foi entrevistado em tukano por uma banca de cinco membros, teve de escrever um memorial nessa língua e mais um texto em português para comprovar seu letramento no idioma oficial do país. A entrevista oral foi filmada como documento para registro universitário. Fizeram provas 410 candidatos para 40 vagas - mais de 10 candidatos por vaga, portanto.
Os outros dois polos encontram-se nos dois outros rios importantes da região: o de língua baniwa fica em Tunuí Cachoeira, no Alto Rio Içana, e o de nheengatu fica em Cucuí, no Alto Rio Negro, fronteira com a Venezuela. Lá também o vestibular foi assim, apenas com menos candidatos por vaga, já que a escolarização é historicamente menos intensa, sobretudo no Ensino Médio.
O curso é oferecido, portanto, em comunidades indígenas, e não na cidade, beneficiando os indígenas que, efetivamente, vivem na maior terra indígena do Brasil. O nome é revelador dessa ideia de formar profissionais para ficar na região, para atuar sobre as necessidades das comunidades: Licenciatura em Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável. Expressa-se, assim, uma demanda enunciada muitas vezes nas várias discussões prévias para a elaboração da proposta: a de que não se quer formar gente para ir embora e a de que não se quer formar “professor de quatro paredes”, reprodutor de cartilhas e de livros didáticos que pouco contribuem para o desenvolvimento integral da população de mais de 35 mil indígenas que habitam o Alto Rio Negro.
O projeto da licenciatura define muito claramente uma política linguística: os idiomas de instrução do curso são as línguas indígenas cooficiais do município. Isso significa que as atividades docentes, as discussões e os trabalhos serão feitos nessas línguas. O português e o espanhol são definidos como línguas auxiliares: grande parte das leituras será realizada nesses idiomas, já que ainda é pequena a produção escrita nas línguas de instrução. Finalmente, as demais línguas da região, como o tuyuka, o desano, o werekena e o kurripako, são empregadas no trabalho pedagógico: línguas de comunidades escolares específicas, nas quais o professor falante da língua em questão conduzirá seu trabalho com as crianças. Discutirá, portanto, em uma língua, lerá em uma segunda língua e desenvolverá seu trabalho docente em uma terceira língua, quando este for o caso. Em Taracuá, já tivemos a oportunidade de experimentar esse modelo.
Nesse primeiro momento, cada um dos polos levantou as problemáticas com que quer trabalhar. O curso não se fundamenta em disciplinas, mas em projetos de pesquisa que se sucedem, permitindo aos alunos desenvolver conhecimento próprio, contextualizado e operacional. Desse modo, o currículo é definido de maneira diferente em cada polo, pelo coletivo de estudantes e de professores, e resulta em produção própria, gerando autoria e entendimento da própria realidade sobre a qual se quer atuar.
As universidades terão muito a ganhar com uma abertura maior para os povos indígenas, sobretudo quando se tratar, efetivamente, de criação de cursos novos - novos no espírito, nas metas, nos métodos - que se proponham a trazer para a universidade os conhecimentos indígenas e não apenas, como muitos ainda fazem, levar até eles o chamado conhecimento ocidental.