As diferentes faces do narrador
Saiba como identificar o narrador da história que você está lendo.
O narrador é aquele que conta ou narra uma história. Não deve ser confundido com o autor que escreve o texto. Este está fora da história e aquele é parte do texto. Ao lado do enredo, dos personagens, da noção de tempo e espaço, o narrador conduz o fio da trama e pode assumir algumas características específicas. Depende do objetivo pensado pelo autor do texto, ele escreve usando determinado foco e nível narrativo.
Alguns autores dão aos narradores estas três classificações:
1) Autodiegético: é o narrador que conta a sua história. Ele narra o que viveu, sentiu, viu e ouviu. Ele fala em primeira pessoa (eu). É também chamado de narrador personagem ou narrador protagonista.
2) Homodiegético: ele não é o personagem principal da história, ou seja, protagonista, mas narra o que presenciou. Ele conta a história de outra pessoa e participa dela como personagem secundário. Também chamado de narrador observador.
3) Heterodiegético: é aquele narrador que não faz parte da história. Ele apenas a narra. Esse narrador conta a história em terceira pessoa (ele). Ele sabe tudo dos personagens, até os sentimentos mais íntimos e a resposta que o personagem daria para determinada pergunta. É por isso que é também chamado de onisciente.
Alguns autores usam apenas duas classificações para o narrador: primeira pessoa e terceira pessoa. Outros acreditam que há apenas um “eu” que narra. Dependendo da posição que este assume na narrativa, ele pode ser compreendido como “narrador externo” e “narrador personagem”. “Externo” será o narrador que se situa fora da história e “personagem” aquele que vive a história junto com os demais personagens.
Para compreender detalhes sobre o assunto, sugere-se ler alguns exemplos. São obras literárias conhecidas de Machado de Assis e Bernardo Guimarães. Confira:
A Escrava Isaura
Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II.
No fértil e opulento município de Campos de Goitacases, à margem do Paraíba, a pouca distância da vila de Campos, havia uma linda e magnífica fazenda.
Era um edifício de harmoniosas proporções, vasto e luxuoso, situado em aprazível vargedo ao sopé de elevadas colinas cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em derredor a natureza ostentava-se ainda em toda a sua primitiva e selvática rudeza; mas por perto, em torno da deliciosa vivenda, a mão do homem tinha convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e pomares deleitosos, em gramais e pingues pastagens, sombreadas aqui e acolá por gameleiras gigantescas, perobas, cedros e copaíbas, que atestavam o vigor da antiga floresta. (…)
(…)Malvina, que apesar da sua vaidade aristocrática tinha alma cândida e boa, e um coração bem formado, não pôde deixar de conceber logo desde o principio o mais vivo interesse e terna afeição pela cativa Isaura. Era esta com efeito de índole tão bondosa e fagueira, tão dócil, modesta e submissa, que apesar de sua grande beleza e incontestáveis dotes de espírito, conquistava logo ao primeiro encontro a benevolência
de todos.
Isaura tornou-se imediatamente, não direi a mucama favorita, mas a fiel companheira, a amiga de Malvina que, afeita aos prazeres e passatempos da corte, muito folgou de encontrar tão boa e amável companhia na solidão que ia habitar. (…)
Disponível em Escrava Isaura. Acesso em 24 de junho de 2009.
O trecho apresenta o narrador heterodiegético. Ele conta os fatos em terceira pessoa, e não faz parte da história. Além disso, esse narrador sabe tudo dos personagens, motivo pelo qual é considerado onisciente. O narrador conta os fatos sem se envolver na história, por isso é chamado também como narrador externo.
Dom Casmurro
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
— Continue, disse eu acordando.
— Já acabei, murmurou ele.
— São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.” (…)
Disponível em Dom Casmurro . Acesso em 29 de junho de 2009.
O trecho revela que o narrador é autodiegético ou, como alguns autores o denominam, narrador personagem. Ele conta o que vive, o que sente e o que vê. Além de narrador, ele é também o personagem principal da história.
Memorial de Aires
10 de janeiro
Fomos ao cemitério. Rita, apesar da alegria do motivo, não pôde reter algumas velhas lágrimas de saudade pelo marido que lá está no jazigo, com meu pai e minha mãe. Ela ainda agora o ama, como no dia em que o perdeu, lá se vão tantos anos. No caixão do defunto mandou guardar um molho dos seus cabelos, então pretos, enquanto os mais deles ficaram a embranquecer cá fora. (…)
14 de janeiro
A única particularidade da biografia de Fidélia é que o pai e o sogro eram inimigos políticos, chefes de partido na Paraíba do Sul. Inimizade de familías não tem impedido que moços se amem, mas é preciso ir a Verona ou alhures. E ainda os de Verona dizem comentadores que as familías de Romeu e Julieta eram antes amigas e do mesmo partido; também dizem que nunca existiram, salvo na tradição ou somente na cabeça de Shakespeare. (…)
Disponível em Memorial de Aires. Acesso em 24 d 14 de janeiro.