Artigos marcados com ‘Fala’

O que não está escrito está no ar

O homem é um ser de comunicação. Ele está permanentemente trocando informações com o meio que o cerca. Mesmo calado, consegue, através de gestos e expressões fisionômicas, causar impressões, expressar sentimentos e demonstrar seus desejos.

A linguagem, a língua e a fala são essenciais para o processo de comunicação. A linguagem é instrumento, conteúdo e forma de pensamento. Ela pode ser verbal (conversas, propagandas, reportagens, obras literárias e científicas, etc.), e não-verbal (sinais de trânsito, desenhos, fotografias, gestos, etc.). A língua é um tipo de linguagem; é a única modalidade de linguagem baseada em palavras e utilizada por um grupo de indivíduos que constitui uma comunidade. Ela é, como bem ressalta o linguista Luiz Antônio Marcuschi, “fundamentalmente um fenômeno sociocultural que se determina na relação interativa e contribui de maneira decisiva para a criação de novos mundos e para nos tornar definitivamente humanos.” Já a fala, é a realização concreta da língua, feita por um indivíduo da comunidade num determinado momento. É um ato individual que cada membro pode efetuar com o uso da linguagem.

Apesar de a língua falada ser o objeto de estudo da ciência da linguagem, a língua escrita foi e continua extremamente importante para a evolução da sociedade. Como diziam os latinos, as palavras voam, somente a escrita fica.  (Verba volant, scripta Manet). Se procurarmos perenidade e credibilidade, é à língua escrita que iremos recorrer. Os registros gráficos das palavras são mais nítidos e duradouros, perfeitos para constituir a unidade da língua através dos tempos. Na verdade, a escrita foi um passo fundamental para a humanidade, não apenas por ser uma forma de registro da história, mas também por representar uma possibilidade de ler e interpretar o mundo. O surgimento da escrita marca o fim da pré-história e o começo da história do homem.

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Tudo se transforma… até a língua

“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
Antoine Lavoisier

              

Lembrei da frase do pensador ao ler um artigo publicado na revista da Língua Portuguesa. O autor da frase parece estar com razão quando diz que tudo se transforma. Segundo o artigo, intitulado “Transformação das palavras ”, as corruptelas da língua têm mesmo uma razão de ser. É o que vamos analisar agora.

O artigo mostra como foi o processo de transformação de algumas palavras, frases e expressões. Muitas palavras, por exemplo, sofreram verdadeira mutilação por preguiça de quem as fala e até porque acreditam que pensar muito dói. Cá entre nós, algumas pessoas agem assim. A economia de esforço parece absurda, mas existe na para pensar.

Vossa mercê”, por exemplo. O autor escreve que, “como pronunciar constantemente ‘vossa mercê’ dava trabalho, passou-se a pronunciar ‘vosmecê’, ‘vossuncê’, ‘vancê’ e ‘você’. Hoje já se diz ‘ocê’ e ‘cê’” (Disponível em Revista da Língua. Acesso em 09 de julho de 2009).

Curiosa também é a transformação de outras palavras e expressões. De puxa vida passou-se a falar putz, de Virgem Maria, ixe e assim por diante.

O famoso “caraca”, usado para mostrar espanto, substitui várias palavras e expressões: Nossa Senhora, Virgem Maria, nossa e até palavrões impronunciáveis. Ainda bem que o termo final não é pejorativo.

Como as palavras podem ser tão corrompidas? Além da imaginação de quem a fala, da lei do menor esforço na hora de falar e da preguiça de pensar e até de prestar atenção, isso pode acontecer por um motivo muito simples: incompreensão. Para ver como é fácil corromper palavras ou não compreender o que se ouve, vamos testar um canal de comunicação por meio de uma brincadeira muito simples, o telefone sem fio.

A brincadeira pode ser feita em sala de aula. Três ou quatro alunos devem esperar do lado de fora da sala. Outro aluno é escolhido para divulgar a mensagem. Isso acontecerá da seguinte forma:

 -  O  professor (ou um aluno) lê um pequeno texto como, por exemplo, uma notícia, uma carta, etc.;

-  O aluno encarregado de divulgar a mensagem chama um dos colegas ausentes e lhe conta o que o professor leu;

-  O aluno que ouviu a mensagem chama outro colega e lhe relata a informação recebida e assim a brincadeira segue até chegar na última pessoa que ficou do lado de fora da sala;

-  O último reconta a mensagem e, então, faz-se a comparação do texto inicial com a mensagem contada pelo último integrante da brincadeira.

Qual será o resultado? Será que o último aluno vai conseguir divulgar a mensagem na íntegra sem distorcer as informações? Como funciona o processo de comunicação?

Duas respostas você terá fazendo a brincadeira. A outra você compreenderá por meio do esquema abaixo.

         

Todo ser humano tem necessidade de se comunicar. No papel de emissor, ele envia a mensagem sobre determinado assunto (contexto) ao receptor. As informações são transmitidas através de um canal de comunicação por meio de determinado código. Se não forem signos conhecidos do receptor, não haverá decodificação da mensagem, motivo pelo qual também não haverá comunicação. Se houver algum ruído, então, também teremos problemas na comunicação.

Cada um de nós faz papel de emissor e receptor. Depende apenas da posição em que nos encontramos no ato de comunicação. O código a que me refiro nas corruptelas mencionadas lá no início é o linguístico. Estamos falando da língua falada e escrita, mas, é claro, muitos outros códigos podem ser usados. O referente, conhecido como contexto ou assunto, pode ser o mais diverso. Restam ainda os canais de comunicação que, por um bom tempo, restringiam-se ao ar e às cordas vocais. Depois, aos poucos, o homem foi conquistando o papel, o teO ato de comunicação pode ser influenciado pelos mais variados ruídos: a voz baixa do emissor, os problemas na articulação, o barulho do ambiente, as manchas de tinta sobre algumas palavras, os erros ortográficos, uma letra ilegível, a falta de atenção do receptor, a preguiça de falar, a economia de esforço, etc. Sob esse ponto de vista, o ruído pode ter origem em qualquer dos elementos da comunicação.

A transformação da língua pode vir de ruídos no ato da comunicação? Sim, pode! Os exemplos citados lá no início têm essa origem. Nesse caso, inclusive, muitas corruptelas são intencionais.

Na língua, portanto, é válido dizer que, embora os ruídos normalmente prejudiquem a comunicação, “nada se perde, tudo se transforma”. Imagina o quanto já contribuímos para essa transformação. Faz parte da variação da língua e, porque não dizer, da evolução linguística. 

E você? Você contribui para a transformação da língua?