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Orações Subordinadas Adverbiais II

A ciência da linguagem na arte literária

Não há nada melhor do que associar o estudo de questões burocráticas da língua à poesia. Pode parecer estranho, pois o poeta tem total liberdade para manipular as palavras e romper com as normas tradicionais da gramática. Entretanto, a ideia é tentar juntar os versos de um poema e com eles formar períodos compostos por subordinação. Confira como é simples e prazeroso compreender regras apreciando a essência de textos poéticos, sem ter que fixá-las através de frases soltas, sem sentido, escritas numa folha de papel.
O poeta Fernando Pessoa é o convidado de hoje para colocarmos um fim à nossa longa jornada de estudos sobre as orações subordinadas.

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Contemplo o que não vejo

(Fernando Pessoa)

Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.

 Com os versos em destaque é possível construirmos o período composto “Embora o vento abrande, há folhas em vaivém”. Observe que este período exprime um fato através da oração subordinada, que apesar de contrário ao que foi dito pela oração principal, não chega a invalidá-lo. Trata-se então de uma oração subordinada adverbial concessiva. As orações subordinadas adverbiais concessivas indicam um fato que se concede, que se admite, em oposição ao da oração principal. As conjunções concessivas são: embora, a menos que, se bem que, ainda que, conquanto que, etc.

Quadras ao Gosto Popular

(Fernando Pessoa)

Deste-me um cordel comprido
Para atar bem um papel.
Fiquei tão agradecido
Que inda tenho esse cordel.

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.

 Os versos em destaque podem construir o seguinte período composto por subordinação: “Vou sonhar o teu retrato, já que não tenho melhor”. Note que ele trabalha com a circunstância de causa. A oração “já que não tenho melhor” expressa a razão pela qual o poeta vai sonhar com o retrato de alguém. Nesse caso, a oração subordinada é classificada em adverbial causal. As conjunções subordinativas causais são: já que, porque, visto que, como, uma vez que, posto que, etc.

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