Rachel de Queiroz

Uma mulher inesquecível…

Menina não entra. Este era o lema da Academia Brasileira de Letras até pouco tempo atrás. Já na sua criação, em 1897, a aplaudida romancista, contista e cronista Júlia Lopes de Almeida foi deixada de fora e em seu lugar convidado o marido, Filinto de Almeida. Em 1930, a piauiense Amélia de Freitas Beviláqua era forte candidata para a cadeira nº 23, mas também foi preterida com a justificativa de que no estatuto constava que a Academia era apenas para os brasileiros, não para as brasileiras (história narrada no próprio site da ABL). Essa lógica, absurda e criticada mesmo àquela época, ainda deixou de fora escritoras como Clarice Lispector e Cecília Meireles. Somente em 1970 uma mulher tornou-se imortal, Rachel de Queiroz, e apenas em 1996 uma mulher presidiu a Academia, Nélida Piñon.

Hoje, a mulher é presença indispensável na literatura brasileira. Desta arte ela participa com a delicadeza e a magia da alma feminina. Realiza sua escrita expressando os sentimentos, as emoções, as alegrias e as dores do ser humano, de seu habitat e de seus complementos: família, terra e animais. Suas mensagens são criativas, saborosas e inteligentes; não perdem um só ângulo dos fatos que a envolvem.  Intuitivas e perspicazes no que desejam, refletem como mães, filhas, avós, amantes e amadas, o que pensam sobre o mundo, a paixão, o amor, a raiva, o ódio e o bem querer.       

Neste dia tão especial, Dia Internacional da Mulher, contarei um pouco sobre a trajetória no mundo das letras de uma mulher incrível, uma escritora incomparável: Rachel de Queiroz.

 “[...] tento, com a maior insistência, embora com tão 
precário resultado (como se tornou evidente), incorporar
a linguagem que falo e escuto no meu ambiente nativo à
língua com que ganho a vida nas folhas impressas.  Não
que o faça por novidade, apenas por necessidade.  
Meu parente José de Alencar quase um século atrás vivia
brigando por isso e fez escola.”

 Rachel de Queiroz

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Uma vida entre livros

Morre, aos 95 anos, um dos grandes incentivadores da cultura brasileira - o empresário e bibliófilo José Mindlin.

Apaixonado incondicional pelos livros, Mindlin será sempre um exemplo de dedicação ao desenvolvimento cultural do Brasil. Considerado um dos maiores colecionadores de livros do país, dedicou anos de uma vida à arte literária, lendo, colecionado e preservando manuscritos e livros raros da literatura brasileira e portuguesa.       

Mindlin reuniu ao longo de 80 anos uma biblioteca, chamada Biblioteca Brasiliana, que é considerada a mais importante coleção do gênero no Brasil formada por um particular. O conjunto de livros e manuscritos inclui cerca de 40 mil volumes, entre obras de literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia (estampas e álbuns ilustrados) e livros de artistas (gravuras).

Filho de judeus nascidos em Odessa, Ucrânia, que emigraram para o Brasil, Mindlin começou a formar sua biblioteca aos 13 anos de idade. Entre as obras, colecionadas com seriedade desde a década de 1930, estão raridades como a primeira edição de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e a primeira edição de “O Guarani”, de José de Alencar, livro que demorou quase 20 anos para ser comprado, entre leilões e oportunidades perdidas.

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A sensatez no uso da Crase

Sempre que abrimos uma gramática, vemos mais ou menos a mesma explicação: crase, do grego crasis, é a fusão de duas vogais… Essa definição -além de pouco prática - não ajuda a entender esse recurso importantíssimo de nossa língua. Pior ainda: há quem desista e passe a encará-la como a vilã mais temida do nosso código linguístico.

 No entanto, o uso no acento grave conhecido como crase não é nenhum bicho de sete cabeças. Ele é mais simples do que muitos outros temas da gramática que envolvem conceitos complexos e nada funcionais. O importante é não acreditar que decorar regrinhas seja a única solução para aprender a usar a crase corretamente. Vale muito mais apelar para o bom senso e fazer uso da nossa intuição linguística, ou generalizar o uso a partir de casos claros, do que memorizar uma lista de normas que mais confundem do que solucionam as nossas dúvidas.

 É possível eliminar a maior parte das nossas incertezas se ficar claro o que ocorre em:

  • Usa-se crase em casos como “vou à praia”, “vou àquela cidade”;
  • Não se usa crase em casos como “Ele deu um presente a Pedro” (nunca se escreve “à Pedro);
  • Não se usa crase em casos como “Obras a 100 Metros” (nunca se escreve “à 100 metros”, pois 100 metros é masculino e está no plural.);
  • Não se usa crase em casos como “Prefiro isso a viajar de trem” (nunca se escreve “à viajar”).

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Placas de Trânsito X Crase

Ao dirigir pelas ruas da minha cidade, pude concluir que boa parte das placas de trânsito devem ter sido escritas por alguém que, definitivamente, passou por algum trauma durante a fase escolar e deseja abolir por completo o uso do acento da crase.   

É claro que, diante de inúmeras regras que somos obrigados a assimilar para crasear corretamente as palavras, não podemos deixar de compreender as dificuldades dos falantes da língua portuguesa em relação ao uso da crase na elaboração de um texto; quem dirá na confecção de uma simples placa de trânsito.

Todos nós aprendemos que o verbo OBEDECER constrói-se com a preposição a. Se o complemento (obedecer a quem) for feminino, teremos crase.   Sabendo disso, já na primeira esquina da minha casa, encontro a placa: “OBEDEÇA O SINAL.” Deve ser por isso que ninguém obedece. O correto é: “OBEDEÇA AO SINAL.” A situação piora com “OBEDEÇA A SINALIZAÇÃO“. É lógico que faltou o acento da crase: “OBEDEÇA À SINALIZAÇÃO“.

Uma solução para evitar dúvidas e erros é substituir o verbo “OBEDECER” pelo “RESPEITAR“, pois este verbo não exige a preposição, apenas o artigo definido. Assim, ao ler a placa “RESPEITAR A SINALIZAÇÃO“, respire aliviado, neste caso a regra está de acordo com a norma culta.

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Carnaval e Literatura, uma dobradinha que dá samba

“Palavra bem escrita é música. Música, se bem composta, é poesia. E quando o poeta encontra o ritmo do samba? Dá carnaval, daqueles inesquecíveis!”

(Jornalistas Renata Vasconcellos e Renato Machado)

 

Não é de hoje que a literatura e o carnaval formam uma parceria de grande prestígio nas ruas da Marquês de Sapucaí. Escritores como Carlos Drummond de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, Vinicius de Moraes e Manoel Bandeira já foram temas de samba enredo em belíssimos desfiles carnavalescos, comprovando que o carnaval não é só folia, mais também um dos grandes veículos de cultura.

Quem não se  lembra do samba “Sonho de um sonho”, cantado por Martinho da Vila no carnaval de 1980? Ele esteve presente na ponta da língua e dos pés de milhares de brasileiros, que, eufóricos, acompanharam das arquibancadas da Sapucaí o contagiante ritmo da bateria. O sonho sonhado da Vila homenageava na época a poesia de Carlos Drummond de Andrade, que também já foi enredo da Mangueira. Era “O reino das palavras”, no carnaval de 1987.

A literatura tem dado sorte para as escolas. “Martin Cererê”, poema de Cassiano Ricardo, empolgou o público que aplaudiu a Imperatriz Leopoldinense em 1972. O samba ficou famoso em todo o Brasil na trilha sonora da novela “Bandeira 2″. “O mundo encantado de Monteiro Lobato” deu à Mangueira o campeonato de 1967. No ano passado, três escolas de samba do Rio de Janeiro foram buscar inspiração em escritores e livros da literatura brasileira. Na Passarela do Samba, foram mostrados retratos do nosso país e do nosso povo, vistos e descritos por Guimarães Rosa, Machado de Assis, Darcy Ribeiro e João do Rio. Com Drummond, a Mangueira venceu em 1987, e, em 2009, tentou a vitória com o livro de Darcy Ribeiro sobre a formação do povo brasileiro. Africanos, índios, europeus, asiáticos - todos reunidos na Marquês de Sapucaí.

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A magia das palavras de Clarice Lispector

Para aprimorar o post anterior - um pouco mais de Clarice Lispector…

Fragmentos de infância, descoberta do mundo pelo olhar curioso, perplexo e profundo da criança-escritora Clarice Lispector.

Escrever, Humildade, Técnica

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Clarice Lispector (do livro “A Descoberta do Mundo”)

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Clarice Lispector

 Um fenômeno da Literatura Brasileira

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada…Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”

Clarice Lispector

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Pintura de De Chirico - Enciclopédia Delta

 

Escritora brasileira, de origem ucraniana, Clarice Lispector publicou romances, contos, crônicas e livros infanto-juvenis. Destacou-se pelo intimismo de sua narrativa voltada para as tensões existenciais: volta-se para os conflitos do ser humano, aprofundando-se na tensão entre a plenitude e o vazio existenciais, entre a paixão e a racionalidade. Seu estilo é dramático, marcado por uma ironia inteligente, por frases contidas e por experiências de formas de narração inovadoras.

Essa incrível escritora nasceu em Tchelchenik, uma aldeia na Ucrânia, em 1920. A família, os pais e três meninas, desembarcaram em Maceió quando Clarice tinha apenas 2 meses de idade. Dois anos depois fixaram-se no Recife, onde a autora passou a infância e parte da adolescência.

Aos sete anos, Clarice Lispector já dava seus primeiros passos como escritora. Escrevia pequenos contos que enviava para o Diário da Tarde, com a esperança de que eles fossem publicados no suplemento infantil, o que nunca aconteceu. Aos nove perde a mãe, e sofre ao ver o pai enfrentar sérios problemas financeiros. Vê na leitura, um refúgio, e descobre Monteiro Lobato, primeiro autor a fasciná-la.

Em 1935 a família decide mudar-se para o Rio de Janeiro, onde conclui o segundo grau e começa a trabalhar como professora particular de português. Por conta disso, passa a frenquentar, quase diariamente, uma biblioteca onde alugava livros. Virou fã das obras de Hermann Heese, Dostoiésvski, Julien Green, Machado de Assis, Júlio Dinis, José de Alencar, Mário de Andrade, Graciliano Ramos.

Indecisa em relação à escolha profissional, resolve cursar Direito na Faculdade Nacional. Em seguida começa a trabalhar na Agência Nacional, como redatora. No jornalismo, conhece e se aproxima de escritores e jornalistas como Antônio Callado, Hélio Pelegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Alberto Dines e Rubem Braga. Em seguida, começa a trabalhar no jornal A Noite e inicia a escrita do livro Perto do Coração Selvagem – segundo ela, um processo cercado pela angústia. Surge então, uma de suas principais características como escritora – anotar ideias a qualquer hora, em qualquer pedaço de papel.

   “Eu escrevo quando quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter a liberdade.” (Clarice Lispector)

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Portugueses e brasileiros falam a mesma língua?

Neste mês de janeiro faz exatamente um ano, que os brasileiros passaram a conviver com as regras do novo Acordo Ortográfico. E, ao contrário do que muitos esperavam, as modificações não causaram grandes confusões, apenas exigiram dos falantes da língua portuguesa, maior atenção na grafia das palavras que sofreram alterações.

Na verdade, as mudanças ocorridas no nosso idioma aconteceram com o objetivo de universalizar a língua portuguesa e facilitar o intercâmbio cultural entre os países da CPLP. No Brasil, 0,5% das palavras sofreram modificações, em Portugal e nos restantes países lusófonos, as mudanças afetaram cerca de 2.600 palavras, ou seja, 1,6% do vocabulário total.

É claro que levará algum tempo para que todos dominem o que mudou com o novo Acordo. Porém, a resistência maior com certeza virá de Portugal, que apenas aprovou a lei depois de muita polêmica e mais de 17 mil assinaturas reunidas contra o projeto. Para os portugueses, o acordo pode causar o “abrasileiramento” da escrita e não mudará diferenças inconciliáveis entre as variantes européia, africana e brasileira, pois muitas delas são de significado e não de grafia.

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O Humor e a Ironia nos Gêneros Discursivos

Gêneros textuais são as diversidades de textos que encontramos em diversos ambientes de discurso na sociedade. Vários fatores sócio-culturais ajudam a identificar os gêneros, assim como a definir que tipo de gênero deve ser usado no momento mais adequado à situação, seja na oralidade, seja na escrita. 

O humor e a ironia são recursos linguísticos que aparecem em diferentes gêneros textuais. São utilizados intencionalmente pelos autores dos textos para entreter e atrair a atenção do leitor, ou ainda, provocar reações de reflexão crítica em relação ao que foi mencionado.  

A ironia já foi uma técnica de busca da verdade, um expediente teatral e até uma teoria filosófica, embora a maior parte das pessoas só a conheça por meio dos manuais de gramática, como figura de linguagem. O conceito moderno de ironia a define como uma figura de pensamento utilizada para dizer o contrário daquilo que se quer comunicar. A ironia pode ser percebida por meio do tom de voz de quem a profere, por alguma característica gestual ou pelo contexto em que ela se manifesta. Ela só é percebida pelo receptor quando esse apreende a antítese entre o que o emissor diz e a verdade. Desta forma, são necessários o conhecimento do referente e a atenção contínua para uma interpretação apropriada do enunciado. A função da ironia é, geralmente, criticar, censurar ou denunciar algo.

O humor fundamenta-se, sobretudo no rompimento com o esperado, trazendo o novo, o inesperado. O que foi mencionado é recuperado e atualizado, e outros sentidos diferentes dos já estabelecidos na memória discursiva do falante aparecem. Esse recurso linguístico além de estimular o riso, manifesta valores ideológicos diferentes dos originalmente veiculados. O sentido já estabelecido dá lugar a outros, instigando o questionamento do receptor da mensagem sobre os valores culturais e sociais. A substituição do léxico funciona para enganar o interlocutor que, imagina conhecer o final, quando acaba surpreendido.

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O que não está escrito está no ar

O homem é um ser de comunicação. Ele está permanentemente trocando informações com o meio que o cerca. Mesmo calado, consegue, através de gestos e expressões fisionômicas, causar impressões, expressar sentimentos e demonstrar seus desejos.

A linguagem, a língua e a fala são essenciais para o processo de comunicação. A linguagem é instrumento, conteúdo e forma de pensamento. Ela pode ser verbal (conversas, propagandas, reportagens, obras literárias e científicas, etc.), e não-verbal (sinais de trânsito, desenhos, fotografias, gestos, etc.). A língua é um tipo de linguagem; é a única modalidade de linguagem baseada em palavras e utilizada por um grupo de indivíduos que constitui uma comunidade. Ela é, como bem ressalta o linguista Luiz Antônio Marcuschi, “fundamentalmente um fenômeno sociocultural que se determina na relação interativa e contribui de maneira decisiva para a criação de novos mundos e para nos tornar definitivamente humanos.” Já a fala, é a realização concreta da língua, feita por um indivíduo da comunidade num determinado momento. É um ato individual que cada membro pode efetuar com o uso da linguagem.

Apesar de a língua falada ser o objeto de estudo da ciência da linguagem, a língua escrita foi e continua extremamente importante para a evolução da sociedade. Como diziam os latinos, as palavras voam, somente a escrita fica.  (Verba volant, scripta Manet). Se procurarmos perenidade e credibilidade, é à língua escrita que iremos recorrer. Os registros gráficos das palavras são mais nítidos e duradouros, perfeitos para constituir a unidade da língua através dos tempos. Na verdade, a escrita foi um passo fundamental para a humanidade, não apenas por ser uma forma de registro da história, mas também por representar uma possibilidade de ler e interpretar o mundo. O surgimento da escrita marca o fim da pré-história e o começo da história do homem.

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