O horário de verão explicado pela Geografia

     Mais uma vez, estamos no horário de verão, ou seja, adiantamos nossos relógios em uma hora e precisamos nos adaptar biologicamente a esse novo horário. Todo ano é a mesma coisa: discussões infindáveis sobre o tema, pessoas reclamando por serem obrigadas a acordar uma hora mais cedo, outras felizes por terem uma hora a mais de claridade ao final do dia, médicos apresentando os problemas para as crianças e os idosos se adaptarem às mudanças e, principalmente, pessoas com cara de sono nos primeiros dias do novo horário. Mas qual a explicação geográfica para essa mudança? Por que parte do Brasil não adianta seus relógios? A Geografia pode ajudar na compreensão do tão polêmico horário de verão.

O polêmico Horário de Verão altera nossas rotinas. Foto: Nick Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

O polêmico Horário de Verão altera nossas rotinas. Foto: Nick Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

     A ideia do horário de verão surgiu antes do desenvolvimento da luz elétrica, nos Estados Unidos, em 1784, quando o inventor Benjamin Franklin buscava uma opção para um maior aproveitamento da luz do dia. Mais de um século depois, em 1907, na Inglaterra, um membro da Sociedade Astronômica Real, o construtor londrino William Willett iniciou uma campanha para estimular o lazer dos britânicos por meio de um melhor uso da iluminação natural e da consequente diminuição do consumo da luz artificial. Willett propunha avançar os relógios em 20 minutos nos domingos do mês de abril e retrocedê-los na mesma proporção nos domingos de setembro, para aproveitar melhor a luz natural ao ar livre e, ao mesmo tempo, economizar a luz artificial nas residências.

     Mais de um século depois, a ideia principal do horário de verão se mantém, visando adaptar as atividades humanas à luz natural do dia. A medida é adotada em vários países do globo, principalmente do Hemisfério Norte, e tem como principal objetivo evitar a sobrecarga nos sistemas de transmissão e produção de energia durante os horários de pico, para que não ocorram os chamados apagões de energia, trazendo também pequena economia de energia e recursos. O horário de pico ocorre próximo às 18 horas, quando as pessoas retornam para as suas casas e acendem luzes, utilizam chuveiros elétricos, condicionadores de ar, e, ao mesmo tempo, a iluminação pública é acionada.

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     O Brasil é um dos poucos países cortados pela Linha do Equador (países tropicais) que adotam o horário de verão, porém apenas o faz nos estados do Centro-Oeste, Sul e Sudeste, onde há significativa variação da luminosidade ao longo do ano. Em regiões como a Norte e a Nordeste, a variação da luz solar é praticamente inexistente, sendo ineficaz o estabelecimento do horário especial. Desde 2008, o Decreto n.º 6.558 instituiu a hora de verão a partir do terceiro domingo do mês de outubro de cada ano até o terceiro domingo do mês de fevereiro do ano subsequente em parte do território nacional.

     No Brasil, a economia de aproximadamente 5% no consumo de energia é secundária; muito mais importante é reduzi-lo no horário de pico, evitando a sobrecarga do sistema energético no período próximo das 18 horas. A extensão do território brasileiro no sentido norte-sul (latitudinal) faz com que haja grande variação nos períodos de iluminação solar, em diferentes pontos do País, ao longo do ano. Em estados mais distantes da Linha do Equador, a diferença de luminosidade entre o dia e a noite nos períodos de inverno e de verão é bastante distinta. Isso ocorre em função do eixo de inclinação terrestre, associado ao movimento de translação da Terra.

     Essa inclinação do eixo de rotação terrestre faz com que, ao longo dos 365 dias do ano, durante o movimento de translação do Planeta, a iluminação solar incida de forma desigual nos hemisférios Norte e Sul. Essa variação na incidência da luz solar produz as diferentes estações do ano. Nos períodos em que tal diferença é maior (solstícios), enquanto é verão em um dos hemisférios, é inverno no outro, com grande variação entre o dia e a noite. Por outro lado, quando ocorre igualdade de distribuição da luz solar, com incidência na Linha do Equador (equinócio), os dias e noites têm duração muito próxima.

Movimento de Translação e o eixo de inclinação terrestre. Fonte: DBK Multimídia, Positivo Informática.

Movimento de Translação e o eixo de inclinação terrestre. Fonte: DBK Multimídia, Positivo Informática.

     Durante o movimento de translação terrestre, após o Equinócio de Primavera no Hemisfério Sul (por volta do dia 22 de setembro), quando os raios solares incidem perpendicularmente à Linha do Equador, à medida que os meses passam, os dias tornam-se gradativamente mais longos que as noites, ou seja, o sol se põe mais tarde. Esse aumento no período de iluminação solar vai até aproximadamente o dia 22 de dezembro, data em que ocorre o Solstício de Verão nesse hemisfério - dia mais longo do ano. A partir de então, mais uma vez a diferença entre o dia e a noite vai diminuindo, até o dia 20 de março, quando acontece o Equinócio de Outono (no mesmo hemisfério) e o período entre o dia e a noite volta a ser igual.

Imagens de satélite onde aparecem as diferenças de iluminação nas diferentes estações do ano. Fonte: Nasa.

Imagens de satélite onde aparecem as diferenças de iluminação nas diferentes estações do ano. Fonte: Nasa.

     Assim, os meses entre o início da primavera e o final do verão correspondem ao período em que a luz solar pode ser mais bem aproveitada pelas pessoas que vivem longe da Linha do Equador, pois é o período em que os dias são mais longos e o Sol se põe mais tarde. Por outro lado, nas regiões próximas à Linha do Equador a diferença na duração do dia e da noite ao longo do ano é mínima, não compensando a implantação do horário de verão.

E você, o que acha do horário de verão? Deixe seu depoimento!

Por: Claudio Lopes Takayasu