Tempo seco, baixa umidade, estiagem e queimadas… O que Geografia pode explicar?

     As notícias estão em todos os meios de comunicação e os problemas podem ser sentidos por todos os sentidos (a repetição é proposital): no olfato, no tato, nos olhos, também na garganta, no coração, em todo o organismo, deixando as pessoas preocupadas e incomodadas.

     A OMS (Organização Mundial de Saúde) alerta para os cuidados que as pessoas devem ter quando os índices de umidade relativa atingem níveis considerados perigosos para a saúde. De acordo com o órgão, quando os índices de umidade relativa são inferiores a 30%, caracteriza-se estado de atenção; de 20% a 12%, estado de alerta; e abaixo de 12%, estado de alerta máximo.

Estiagem - Castanheira em paisagem amazônica. Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Estiagem - Castanheira em paisagem amazônica. Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

     Nos últimos dias, a umidade relativa do ar chegou a indicadores extremamente preocupantes. Em várias cidades do Estado de São Paulo, o índice ficou entre 11% e 17%. Na terça-feira, 24 de agosto, seis das 27 estações do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) instaladas em território paulista marcavam índices abaixo de 12%, enquanto na capital federal o índice foi de apenas 7% no mesmo dia. Para se ter uma ideia, no Deserto do Saara a umidade relativa do ar oscila entre 10% e 15%.

O futuro?!? Foto: Matt Eckelberg. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

O futuro?!? Foto: Matt Eckelberg. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

A umidade relativa do ar

     Dentro do ciclo hidrológico, a evaporação da água de lagos, mares e oceanos somada à evapotranspiração da cobertura vegetal, de solos e demais corpos que possuem água em sua composição - incluem-se aqui os seres humanos, que transpiram e respiram - transferem para a atmosfera grandes volumes de vapor d’água, que formam a umidade atmosférica.

Ciclo da água. Autor: John M. Evans/USGS-USA Gov

Ciclo da água. Autor: John M. Evans/USGS-USA Gov - Free for all use

     Essa umidade pode ser relativa ou absoluta. A umidade relativa é a relação entre a umidade absoluta e o ponto de saturação, que é quantidade máxima de água que uma porção da atmosfera pode conter, medida em porcentagem. O ponto de saturação varia de acordo com a temperatura - quanto maior a temperatura, maior o ponto de saturação, ou seja, maior capacidade de conter umidade. Por sua vez, a umidade absoluta é a quantidade total de vapor d’água na atmosfera em determinado momento, medida em gramas pelo higrômetro. Também varia com a temperatura.

     Assim, quando a mídia noticia que a umidade relativa do ar é de 50%, por exemplo, quer dizer que a atmosfera atingiu 50% da capacidade de retenção de vapor d’água. Para que haja precipitação, é necessário, além de chegar ao ponto de saturação, que ocorra condensação da água na atmosfera. Em dias chuvosos, a umidade relativa do ar está em 100%, ou seja, atingiu a capacidade máxima de retenção e o ponto de saturação.

Estiagem e queimadas

     Os períodos em que não ocorrem precipitações ou em que os volumes de chuva são insignificantes ou muito abaixo da média são conhecidos como períodos de estiagem. Os meses de inverno são normalmente períodos mais secos, com volumes menores de precipitação. Porém, estamos sob a influência da La niña, que, de acordo com os modelos de previsão climática divulgados pelo CPTEC/INPE (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) no dia 18 de agosto, provocará chuvas abaixo da média em boa parte do Centro-Sul do País.

La Niña e a influência nos índices de pluviosidade para os próximos meses. Fonte: CPTEC/INPE.

La Niña e a influência nos índices de pluviosidade para os próximos meses. Previsão probabilística. Fonte: CPTEC/INPE.

     A menor incidência de chuvas somada aos baixos índices de umidade relativa do ar aumentam o risco de incêndios, que podem piorar ainda mais a situação, devido à poluição lançada na atmosfera durante as queimadas. Por isso, é necessária a conscientização da população, para que não acenda fogueiras, não solte balões, não queime lixo, não utilize queimadas para limpar terrenos, etc.

Prática corriqueira, queimada para "limpeza" do terreno. Foto: Otávio Nogueira. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Prática corriqueira, queimada para ‘limpeza’ do terreno. Foto: Otávio Nogueira. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Dicas para aliviar o desconforto

     A baixa umidade relativa do ar pode provocar irritação nos olhos e até mesmo conjuntivite viral, problemas respiratórios, desidratação, desconforto no nariz e na garganta, inflamações no sistema respiratório, alterações no sistema circulatório, problemas cardiovasculares, entre outros problemas de saúde.

Poluição na cidade de Curitiba. Foto: Leonardo Boiko. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Poluição na cidade de Curitiba. Foto: Leonardo Boiko. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

     Especialistas recomendam beber o dobro de líquido ingerido em dias normais; oferecer água várias vezes ao dia para crianças pequenas e idosos; utilizar umidificadores ou colocar vasilhas com água e pendurar toalhas molhadas nos ambientes, mantendo as janelas fechadas; evitar práticas esportivas ao ar livre, especialmente nos horários mais quentes do dia; nas principais refeições, ingerir comidas leves, frutas e saladas.

Por: Claudio Lopes Takayasu

Existem países socialistas no mundo atual?

         No dia 9 de novembro de 1989, caía o Muro de Berlim, símbolo máximo do Mundo Bipolar e da Guerra Fria… O momento simbolizava também a queda da URSS e a desestruturação do mundo socialista. Mas e todos os aliados soviéticos? O “lado” socialista do Mundo Bipolar? Mais de duas décadas após o lapso do Muro e da reunificação alemã, o que aconteceu com as dezenas de nações socialistas que existiam no mundo?

         Após o fim da URSS, a maioria das nações socialistas passou por uma transformação, sendo chamadas de países em transição, ou seja, foram aos poucos deixando o socialismo para incorporar o capitalismo em suas estruturas político-econômicas. Atualmente, raros países permanecem com características socialistas, existindo grande dificuldade em considerar quais poderiam ser realmente classificados dessa maneira. É comum serem lembrados países como China, Cuba, Coreia do Norte, Vietnã e Laos, por exemplo; mas, ainda assim, algumas características podem colocar em dúvida tal classificação.

         Analisando fatos atuais, podemos destacar a China, onde há uma enorme concentração de milionários como poucos países possuem. Toda essa riqueza é fruto da implantação das ZEE (Zonas Econômicas Especiais), ainda na década de 1970, onde ocorreu abertura de mercado ao capital estrangeiro. Apesar da intensa participação estatal, essas zonas seguiram o princípio capitalista da busca pelo lucro, produzindo para o comércio internacional, mas utilizando a mão de obra abundante, barata e, muitas vezes, sem direitos, existente em território chinês. A inserção da China na economia de mercado transformou o país na segunda maior economia do planeta (posto alcançado em agosto de 2010).

Produto "chinês". Foto: Daniel Lobo. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica

Produto ‘chinês’. Foto: Daniel Lobo. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica

         Em Cuba, muitos aspectos socialistas são exemplos para o mundo, como o sistema de saúde e a educação. Porém, os dólares também estão presentes no país, onde o turismo recebe milhares de visitantes que trazem consigo o ideal capitalista, gastando, consumindo e movimentando a economia da ilha caribenha. O turismo cubano recebe investimentos em praias controladas onde apenas os turistas e os cubanos que trabalham nos hotéis podem circular, ou seja, a população cubana é proibida de frequentar tais locais. Outra forma em que há materialização do capitalismo em Cuba é por meio do comércio externo, que, apesar do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos desde 1962, exporta diversos produtos, como charutos e produtos tropicais, para várias regiões do planeta.

Caixa de charuto cubano. Foto: James Emery. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica

Caixa de charuto cubano. Foto: James Emery. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica

         Atualmente, diversos países autodenominam-se socialistas, alguns oficialmente no próprio nome, outros incluindo textos em suas constituições, como, por exemplo, Egito, Bangladesh, Índia, Portugal, entre outros. Existem países que são governados por partidos de esquerda eleitos democraticamente - caso do próprio Brasil -; outros são governados por partidos únicos de esquerda, como o Laos e a Coreia do Norte.

         Outro recente destaque é a República Bolivariana da Venezuela, onde o governo foi eleito democraticamente e, após assumir, modificou a constituição do país, permitindo a reeleição infinitamente, além de dar poderes praticamente ilimitados ao presidente. Hugo Chávez, atual chefe de Estado venezuelano (e responsável pelas mudanças constitucionais), passou a controlar setores estratégicos do país, como as telecomunicações (censurando e perseguindo opositores), o sistema bancário e a produção de energia, estatizando grande parte das empresas instaladas no país, criando mal-estar em relação a várias multinacionais - entre elas, a Petrobras.

Caracas - Venezuelanos fazem manifestação de apoio à TVes, emissora que substituiu a RCTV, que não teve a concessão renovada pelo governo Chávez Foto: Maiquel Torcatt/ABN. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.5 Brasil

Caracas - Venezuelanos fazem manifestação de apoio à TVes, emissora que substituiu a RCTV, que não teve a concessão renovada pelo governo Chávez Foto: Maiquel Torcatt/ABN. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.5 Brasil

         O certo é que, bem diferente do socialismo ideal, sonhado no século XIX, que buscava uma sociedade justa, igualitária e sem divisão de classes, ou mesmo do socialismo real, que teoricamente seria praticado em países que se autointitulam socialistas e deveriam opor-se ao capitalismo, proporcionando distribuição de renda e condições mínimas de vida a seus habitantes, o que vemos são milhões de pessoas sem direitos, que continuam vivendo na pobreza, enquanto uma minoria acumula riquezas, beneficiando-se das estruturas do Estado ou mesmo da dinâmica do sistema capitalista.

Por: Claudio Lopes Takayasu

Enchentes no Paquistão – A força das monções no continente asiático

   Segundo a ONU, as chuvas que atingem o Paquistão desde o final de julho já provocaram pelo menos 1.600 mortes, afetando aproximadamente 14 milhões de pessoas. As enchentes na região são consideradas as piores nas últimas oito décadas, e os números do desastre já ultrapassaram os danos ocasionados pelo tsunami de 2004.

   Para se ter uma ideia, as imagens a seguir, com aproximadamente um ano de diferença entre si, mostram o volume do Rio Indo durante o mesmo período de chuvas. A primeira imagem, de 1.º de agosto de 2009, apresenta o rio com volume aumentado considerado normal para a época.

Imagem capturada no dia 1.º de agosto de 2009 pelo sensor MODIS do satélite Terra. Fonte NASA/EUA.

Imagem capturada no dia 1.º de agosto de 2009 pelo sensor MODIS do satélite Terra. Fonte NASA/EUA.

   Já a segunda imagem, capturada no dia 31 de julho de 2010, mostra o alargamento do curso do rio, resultado do volume muito acima da média, mesmo para o período das chuvas.

Imagem capturada no dia 31 de julho de 2010 pelo sensor MODIS do satélite Terra. Fonte NASA/EUA.

Imagem capturada no dia 31 de julho de 2010 pelo sensor MODIS do satélite Terra. Fonte NASA/EUA.

   A elevação do nível dos rios levou à destruição de milhares de casas, pontes e estradas, dificultando os trabalhos de resgate, além de causar prejuízos em hospitais, prédios públicos e na infraestrutura geral. A grande densidade demográfica da região potencializa o desastre, preocupando a OMS (Organização Mundial da Saúde) com as possíveis epidemias relacionadas ao contato e à ingestão de água contaminada, como cólera, hepatite e diarreias.

   Grande parte da população existente no Sudeste Asiático dedica-se a atividades ligadas à agricultura, vivendo nas planícies fluviais às margens dos principais rios, dependendo do regime de cheias e dos sedimentos deixados pelas inundações, que tornam os solos mais férteis.

   Apesar de estar acima do volume considerado normal, a previsão aponta que o mês de agosto - período de chuvas torrenciais das monções de verão no Sudeste Asiático - terá mais chuvas, mantendo as características climáticas da região.

Clima de monções

   O clima de monções é caracterizado pela mudança na direção dos ventos de acordo com as estações do ano. Diferentemente do que ocorre em outras regiões e/ou continentes do globo, a Ásia apresenta uma característica única, que é a diferença entre massa continental e massa oceânica na comparação entre os hemisférios. Observando o mapa do continente asiático, percebemos que toda a área continental está localizada no Hemisfério Norte; no Hemisfério Sul, sobram apenas parte da porção insular asiática e a maior parte do Oceano Índico. Essa diferença provoca a formação de zonas opostas de alta e baixa pressão nos hemisférios, de acordo com a estação do ano.

   Durante o inverno no Hemisfério Norte, as baixas temperaturas no continente geram zonas de alta pressão atmosférica, “empurrando” o ar em direção ao Oceano Índico, onde as temperaturas mais elevadas criam zonas de baixa pressão. A consequência é um inverno mais seco, pois parte da umidade no continente é levada para o oceano.

Monções de inverno – dezembro a março

Monções de inverno – dezembro a março

   Por outro lado, durante o verão a dinâmica nesse hemisfério se inverte. As elevadas temperaturas formam áreas de baixa pressão no continente e, consequentemente, as temperaturas mais baixas no Oceano Índico (cuja maior parte da massa líquida está localizada no Hemisfério Sul, onde é inverno) criam zonas de alta pressão, que sopram em direção ao continente, levando grande volume de umidade formada no oceano.

Monções de verão – junho a setembro

Monções de verão – junho a setembro

   O resultado é o aumento nos índices pluviométricos, com chuvas torrenciais, que elevam rapidamente o nível dos rios que saem da calha normal, inundando as planícies fluviais onde vive grande parte da população asiática.

   As monções são imprescindíveis no sul e no Sudeste Asiático, especialmente em países como Paquistão, Índia e Bangladesh, onde grande parte da população depende da agricultura para sobreviver. Mas a importância das monções vai além da sua influência em atividades econômicas como a prática agrícola, pois ela organiza muitos hábitos da população local.

   Muito mais do que as chuvas torrenciais que naturalmente inundam as planícies ocupadas por pessoas que dependem da natureza para sobreviver, a pobreza e a falta de infraestrutura e de condições adequadas de vida para maior parte dos habitantes do Sudeste Asiático são as verdadeiras responsáveis pelos desastres ocorridos todos os anos na região.

Por: Claudio Lopes Takayasu

História indígena no Brasil: descobrimento ou invasão? Eles têm direito?!

   O assunto indígena (o termo índio foi erroneamente cunhado pelos primeiros colonizadores, que acreditavam ter chegado às Índias) nos remete às aulas de História, ao tema Descobrimento do Brasil e ao turbulento contato entre portugueses e “índios”… Ou então aos filmes de faroeste, nos quais “índios” a cavalo, com cocar e arco e flecha, lutavam contra cowboys no Velho Oeste dos Estados Unidos. Mas a realidade é bem diferente e apresenta muito mais elementos e variáveis.

DEBRET, Jean-Baptista. Soldados indígenas da Província de Coritiba conduzindo indígenas presas. 1834. Litografia aquarelada: 210 x 325cm. Acervo Casa da Memória. Fundação Cultural de Curitiba. Coleção Newton Carneiro.

DEBRET, Jean-Baptista. Soldados indígenas da Província de Coritiba conduzindo indígenas presas. 1834. Litografia aquarelada: 210 x 325mm. Acervo Casa da Memória. Fundação Cultural de Curitiba. Coleção Newton Carneiro.

   Estima-se que existam aproximadamente 230 diferentes povos indígenas em todo o território brasileiro, com população em torno de 600 mil indivíduos - em 1500, eram 5 milhões -, que falam cerca de 180 línguas diferentes. Os milhares de aldeias espalhadas em todo o País apresentam diferentes graus de “aculturação”. Poucos povos mantêm-se isolados em regiões no interior da Floresta Amazônica, em áreas de difícil acesso.

DEBRET, Jean-Baptista. Família de um chefe Camacã preparando-se para uma festa. 1834. Litografia aquarelada: 186 x 293cm. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - USP.

DEBRET, Jean-Baptista. Família de um chefe Camacã preparando-se para uma festa. 1834. Litografia aquarelada: 186 x 293mm. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - USP.

   Mesmo assim, ao contrário do que se pensou durante muito tempo, a ideia de povos nativos, subjugados e derrotados, que perderam completamente sua identidade, por sorte não se verifica, ou pelo menos não da forma como o senso comum acredita. Diferentemente das representações dramáticas disseminadas pela mídia e ensinadas em muitas escolas e mesmo em universidades, após mais de 500 anos de colonização, diversas nações indígenas conseguiram resistir e sobreviver à violência física e cultural adaptando-se e elaborando diferentes formas de resistência.

DEBRET, Jean-Baptiste. Índios Atravessando um Riacho (O Caçador de Escravos). 1820-1830. Óleo sobre tela: 80 x 112mm. Museu de Arte de São Paulo.

DEBRET, Jean-Baptiste. Índios Atravessando um Riacho (O Caçador de Escravos). 1820-1830. Óleo sobre tela: 80 x 112mm. Museu de Arte de São Paulo.

   Apesar do inquestionável decréscimo populacional dos povos indígenas e da sua influência nas diferentes culturas, resultado do contato com os europeus, a identidade étnica foi preservada pela manutenção de elementos culturais, crenças, símbolos e práticas cotidianas. Muitos povos considerados extintos no século XIX “ressurgiram” no século XX, exigindo seus direitos históricos, que haviam sido negados até então. Boa parte do século passado (em especial as últimas décadas) foi importante na medida em que diversos grupos sociais, incluindo antropólogos, historiadores, pesquisadores, entre outros, passaram a pressionar os governantes e os órgãos oficiais para o reconhecimento de povos étnicos diferenciados, ou seja, dos remanescentes indígenas.

   Desde a Constituição de 1988, que reconheceu oficialmente a existência de povos indígenas, além de declarar seus direitos, vários órgãos indigenistas foram criados e lutam pelo reconhecimento de áreas indígenas que nada mais são que reconquistas de terras historicamente pertencentes a eles.

August Seyffer e J. P. Bittheuser. Dança de Camacans. 1822. Gravura: 237 x 320mm. Coleção Brasiliana, Pinacoteca do Estado de São Paulo.

August Seyffer e J. P. Bittheuser. Dança de Camacans. 1822. Gravura: 237 x 320mm. Coleção Brasiliana, Pinacoteca do Estado de São Paulo.

   O fenômeno de ressurgimento étnico vem acontecendo graças ao orgulho indígena pela sua ascendência, pelos seus vínculos históricos de origem pré-colombiana. Ou seja, os povos nunca deixaram de existir; na verdade, foram ignorados por visões preconceituosas, que os consideravam aculturados, caboclos e sem identidade, criando teorias que explicariam a extinção de grupos indígenas. Porém, a caboclização não exterminou a forma de viver e os costumes desses povos, mantendo viva a história.

   Todos os debates recentes envolvendo a temática indígena indicam a necessidade de rever a história eurocentrista de descoberta e conquista. É preciso analisar as reais relações coloniais e o processo histórico dos últimos 500 anos, que culminaram na construção estereotipada do papel dos indígenas e de seus direitos no Brasil, reconhecendo que não são esses povos que precisam de permissão para ocupar o território em que vivem.

Por: Claudio Lopes Takayasu

A importância do Censo 2010

   O que é o censo? Para que serve? O que muda na vida de cada cidadão? São algumas das questões que surgem ao nos depararmos com as notícias que confirmam a realização do XII Censo Demográfico brasileiro a partir de agosto de 2010. Considerado pelo próprio IBGE (responsável pelas pesquisas) como o maior censo de todos os tempos, seus resultados apresentarão um retrato completo da população brasileira, trazendo a conhecimento as características socioeconômicas e, ao mesmo tempo, fornecendo informações que pautarão o planejamento público e privado nos próximos dez anos.

Logotipo do Censo 2010. Fonte: IBGE

Logotipo do Censo 2010. Fonte: IBGE

   O censo pode revelar, além de características socioeconômicas, condições étnicas e culturais da população. A história revela fatos menos nobres ligados ao censo no mundo. Segundo o livro A IBM e o holocausto, a empresa estadunidense de tecnologia desenvolveu, no início do século XX, máquinas e softwares que permitiram aos nazistas identificar, por meio de recenseamentos na Alemanha, pessoas de origem judaica, facilitando o genocídio com notável precisão.

   Por outro lado, a importância da pesquisa censitária está nas informações geradas após um recenseamento populacional por meio do qual os dados levantados tornam-se ferramentas indispensáveis para conhecer, por exemplo, os segmentos mais vulneráveis da população, as regiões marginalizadas e, pelo menos em teoria, ajudar a desenvolver políticas públicas que permitam melhorias na qualidade de vida das pessoas. A iniciativa privada tem interesse claro nos levantamentos censitários, pois possibilitam elaborar estratégias de marketing direcionadas ao poder aquisitivo da população, à sua idade, aos seus hábitos de consumo, entre outros dados obtidos. As informações coletadas servem como base aos governantes e responsáveis políticos na tomada de decisões sobre a legislação e para desenvolver e promover programas de combate à miséria, ao analfabetismo, à mortalidade infantil e à discriminação.

   Para Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, 2010 - ano em que serão realizados censos em pelo menos 60 países - será marcado pela possibilidade de melhoria na governança de vários países por meio do acesso às informações de qualidade, que servirão como base para planejar políticas igualitárias para as gerações presentes e futuras.

O Brasil…

   Segundo o IBGE, o Censo 2010 será um retrato de corpo inteiro do País, revelando o perfil da população e as características de seus domicílios, ou seja, diagnosticará minuciosamente quem somos, quantos somos e como e onde vivemos. Para isso, o processo envolverá cerca de 240 mil pessoas em todo o País, desde responsáveis pelo levantamento de dados (pesquisas), pelo processamento, pela análise de informações, pela logística, até especialistas, entre outros; além da utilização de 220 mil computadores de mão equipados com receptores de GPS, garantindo informações fidedignas durante todo o processo. Os 5.565 municípios que compõem o território brasileiro terão aproximadamente 58 milhões de domicílios visitados pelos agentes recenseadores, que serão reconhecidos pelos seus coletes azuis e bonés com a logo do Censo 2010 do IBGE, além do crachá com identificação e número de matrícula do recenseador, que poderá ser confirmado no site oficial do Censo 2010.

Identificação dos recenseadores. Foto: IBGE.

Identificação dos recenseadores. Foto: IBGE.

   Para que o Censo 2010 tenha o máximo de sucesso e, principalmente, represente a realidade brasileira, será necessária a participação de todos. Responder aos questionários - básico e de amostra - de maneira correta (e completa) é dever e direito de cada cidadão, garantindo a possibilidade de mudanças positivas na vida da população brasileira.

Computador de mão desenvolvido especialmente para o Censo 2010. Foto: IBGE.

Computador de mão desenvolvido especialmente para o Censo 2010. Foto: IBGE.

   Lembre-se: com informações atualizadas e precisas, todos só terão a ganhar… Os governantes e a sociedade poderão agir com maior eficiência, planejando e avaliando melhor as necessidades socioeconômicas do País.

Para saber mais sobre Democracia acesse a home page de Sociologia.

Por: Claudio Lopes Takayasu.

Neve no Brasil - Um país tropical

Apesar de o Brasil ser considerado um país tropical, as previsões do tempo nos meses de inverno são geralmente marcadas pela possibilidade de ocorrência de geadas e precipitações de neve em regiões de planaltos e serras do Sul do país, principalmente nos estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, por exemplo, encontram-se os municípios com as menores temperaturas já registradas no Brasil: Urubici e Caçador. No inverno de 1975, os termômetros marcaram 14°C negativos em Caçador, marca superada em 29 junho de 1996 no alto do Morro da Igreja em Urubici, onde a temperatura chegou a 17,8°C negativos. Por que a região Sul do Brasil apresenta baixas temperaturas que favorecem a ocorrência de geadas e de nevascas?

 

Neve na Serra Catarinense. Foto: World66 - Licenciado pelo Creative Commons 2.0

Neve na Serra Catarinense. Foto: World66 - Licenciado pelo Creative Commons 2.0

 

 

Bem, nem todo o território do Brasil está localizado na faixa intertropical, ou seja, entre os trópicos. Quase todo o Sul do País, Sudeste do estado de São Paulo e extremo Sul do Mato Grosso do Sul, estão localizados na Zona Subtropical. Essa zona climática é marcada por estações do ano bem definidas, com verões relativamente quentes e invernos frios, o que não ocorre na Zona Tropical, onde, geralmente, a amplitude térmica é baixa entre o verão e o inverno. As baixas temperaturas na Zona Subtropical se devem à influência das massas polares, que se formam na Antártica viajando pelo Oceano Atlântico ou pela Argentina até alcançar o Brasil. Dependendo de sua intensidade, a massa polar pode atingir a Zona Tropical e chegar até estados do Norte do País, onde a queda de temperatura é conhecida como “friagem”.
São as massas polares que provocam as condições atmosféricas propícias para a ocorrência de geadas e neve em serras e planaltos do Sul do Brasil. As características mais comuns das massas polares são o frio — devido ao seu local de origem — e a umidade — adquirida ao viajar sobre a corrente marítima quente do Brasil. Neste caso a massa de ar é denominada Massa Polar Atlântica (mPa), pois viaja sobre o Oceano Atlântico. Porém, a geada e a neve só ocorrem em condições específicas das massas polares. A geada, por exemplo, forma-se somente quando o tempo está frio e seco. Neste caso, a maior parte do deslocamento feito pela massa polar até chegar ao Brasil se dá pelo continente — o que evita que a massa de ar adquira umidade —, sendo neste caso chamada de Massa Polar Continental (mPc). Já a neve ocorre com o tempo frio e relativamente úmido a ponto de formar nuvens de chuva. Se a massa de ar estiver com muita umidade — característica comum da mPa —, não haverá neve nem geada, pois a umidade age como um regulador térmico, evitando que as temperaturas diminuam muito. Caso a mPc adquira umidade pelo caminho e sua temperatura média seja baixa, há uma grande possibilidade de nevar, principalmente nos planaltos e serras onde a temperatura diminui à medida que a massa de ar ganha altitude. Essa reunião de fatores torna esporádica a ocorrência de neve no Brasil.

Entrada de frente fria no Sul do País 22/07/2010 - imagem do satelite Goes. Fonte: Cptec

Entrada de frente fria no Sul do País 22/07/2010 - imagem do satélite Goes. Fonte: Cptec

 

 

Varias cidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul atraem no inverno milhares de turistas de todo o Brasil devido à ocorrência desses incríveis fenômenos atmosféricos, principalmente a neve, pelo fato de a maioria da população brasileira não ter contato com o frio. O que muitos brasileiros não sabem é que esses fenômenos não são exclusivos dos estados do Sul do Brasil. Já se registrou neve, por exemplo, em varias ocasiões no estado do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. O inverno de 1975 ficou para a história devido à grande nevasca ocorrida em boa parte do Sul do Brasil, incluindo a cidade de Curitiba. O estado de São Paulo teve sua capital atingida pela neve em 1918. Outros locais do estado também já registraram a precipitação de neve em outras ocasiões, como em Campinas e Campos do Jordão. No pico das Agulhas Negras, no Parque Nacional do Itatiaia, localizado no Rio de Janeiro, há registros de várias nevascas desde o início do século XX, com destaque para a ocorrida no inverno de 1985, com a neve atingindo 1 m de espessura. No estado do Espírito Santo já houve vários registros de neve no Pico da Bandeira, ponto culminante da região Sudeste do Brasil, com 2.891 m. No sul de Minas Gerais, no município de Camanducaia e arredores, também houve registro de neve.

Residência coberta por neve na cidade de Curitiba - inverno de 1975. Foto: Alexandre Drabik / Marisa Diana Ribeiro Drabik – Positivo Informática.

Residência coberta por neve na cidade de Curitiba - inverno de 1975. Foto: Alexandre Drabik / Marisa Diana Ribeiro Drabik – Positivo Informática.

 

 

Será possível nevar novamente nesses locais?

A neve observada na maioria dos locais citados acima se configura como um evento climático extremo, ou seja, é rara e quase impossível de ser prevista, a não ser momentos antes do evento. Portanto, quem quer presenciar a ocorrência de neve no Brasil é bom ficar alerta à previsão do tempo e se deslocar para as cidades do Sul do País como São Joaquim e Urubici, em Santa Catarina, locais mais propícios à ocorrência do fenômeno. No pico das Agulhas Negras e arredores e no Pico da Bandeira, devido à maior altitude, as condições climáticas são semelhantes às das cidades com maior incidência de neve no Sul do Brasil, por isso a possibilidade de nevar é maior.

Por: Dorival dos Santos

Código Florestal Brasileiro: o que muda?

   Quando falamos em problemas ambientais, aquecimento global e desenvolvimento sustentado (ou sustentável, como é mais conhecido), pensamos em áreas florestadas, rios cristalinos e céu azul com ar limpo… Mas como crescer economicamente e, no caso do Brasil, aumentar a produção agropecuária sem comprometer o meio ambiente? Como preservar o que sobrou de vegetação nativa sem prejudicar economicamente o produtor rural?

   Entre as principais causas das alterações climáticas e do aquecimento global estão as emissões de poluentes na atmosfera, que tornam os países industrializados os principais responsáveis pelo problema. Países europeus membros da UE, os Estados Unidos, a China, o Japão e a Índia estão no centro dos debates por serem os maiores poluidores da atualidade. E o Brasil?

Castanheira - ao fundo a Floresta Amazônica sendo desmatada. Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Castanheira - ao fundo a Floresta Amazônica sendo desmatada. Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

   No ranking dos responsáveis pelo aquecimento global, o Brasil é o quarto país mais poluidor… e não é pela industrialização. Segundo relatórios do Greenpeace, 75% das emissões brasileiras vêm da destruição de florestas, ou seja, para reduzirmos as emissões de gases estufa será necessário controlar o desmatamento no País. Na última Conferência do Clima realizada em Copenhague, na Dinamarca (dezembro de 2009), o Brasil assumiu alguns compromissos e metas a serem alcançadas:

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   É aí que entram as mudanças no Código Florestal, aprovadas na última semana. O que muda? As mudanças são positivas ou negativas?

   Dependendo da análise, podemos nos unir aos ambientalistas e afirmar que o texto é um retrocesso e provocará um verdadeiro desastre ambiental que inviabilizaria o cumprimento das metas estabelecidas… Ou então podemos ter a percepção dos produtores rurais e afirmar que as mudanças no código favorecerão o desenvolvimento, aumentando a produção agropecuária do País.

Fronteiras agrícolas na região amazônica. Foto: Ana_cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Fronteiras agrícolas na região amazônica. Foto: Ana_cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

   Analise o quadro a seguir e tire suas conclusões sobre as principais mudanças no Código Florestal:

Como era…

 

Como ficou…

Rios deveriam ter, no mínimo, 30 metros de áreas preservadas em suas margens (mata ciliar) e áreas desmatadas precisariam ser recuperadas.

A área mínima de preservação das margens caiu para apenas 7,5 metros e os Estados podem propor diferentes medidas de acordo com levantamentos locais.

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Áreas de Preservação Ambiental (APA), áreas de encosta, topos de morros e várzeas eram regiões de preservação permanente, ou seja, não poderiam ser desmatadas.

 

Cada Estado poderá propor plantio em encostas e topos de morros de acordo com a necessidade. Áreas de várzea não são mais consideradas de proteção permanente e podem, quando necessário, ser utilizadas para fins agropecuários.

Áreas de proteção permanente não faziam parte do cálculo da reserva legal.

Áreas de proteção permanente podem ser descontadas do cálculo da reserva legal obrigatória.

Todo proprietário rural era obrigado a manter no mínimo 20% da propriedade com vegetação original; na Amazônia, o percentual era de 80%. A recuperação de áreas desmatadas era feita com espécies nativas.

Propriedades de até quatro módulos rurais (diferente em cada região do País) não precisam de reserva legal. Dependendo do caso, propriedades no cerrado amazônico podem ter apenas 20% de reserva. A recuperação da área pode utilizar espécies exóticas.

Todo proprietário precisava registrar a área de reserva legal e, em caso de devastação, era obrigado a recompor a área de proteção estando sujeito à multa e a outras sanções.

Estão proibidos “novos” desmatamentos durante cinco anos, mesmo período em que cada Estado definirá programas específicos para o tema. A princípio os proprietários estão desobrigados de recuperar áreas desmatadas até julho de 2008.

Eram previstas multas e sanções econômicas para o proprietário que não respeitasse a legislação.

 

O proprietário poderá ter até 20 anos para recuperação de áreas desmatadas, além da possibilidade de compensação ambiental em outras áreas, substituindo multas e sanções.

   O que percebemos é uma maior autonomia dos Estados nas questões ambientais, com a descentralização da legislação. Dessa forma, os governos locais definirão os percentuais das áreas de reserva legal e as sanções para o descumprimento das leis ambientais. O grande problema é que cada Estado terá cinco anos para desenvolver os planos de zoneamento ambiental, além das próprias leis. O perigo fica nos interesses envolvidos e na fiscalização durante a elaboração dos textos.

A floresta... Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

A floresta… Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

   Vale lembrar que o Brasil é um dos países com maior número de leis ambientais vigentes… O grande problema é fazer com que essas leis sejam cumpridas!

O início... Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

O início… Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

O fim... Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

O fim… Foto: Ana_Cotta. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

   Diversas pesquisas já comprovaram que é possível aumentar a produção agrícola sem a necessidade de aumentar a área plantada. Pesquisas agropecuárias, ciência, investimentos em equipamentos, qualificação profissional, diminuição de desperdícios, entre outros fatores, permitem que diversos países desenvolvidos com características físicas bem menos favoráveis que as brasileiras, produzam mais que o Brasil.

   Assim, antes de aumentarmos a devastação dos remanescentes florestais brasileiros, é necessária a otimização das áreas já existentes… Além disso, uma fiscalização com respeito à legislação em vigor já garantiria preservação ambiental com recordes de produção agropecuária.

Por: Claudio Lopes Takayasu

Hidrelétrica de Belo Monte, Pará

   A Bacia Amazônica possui o maior volume de águas superficiais do planeta, apresentando também o maior potencial hidroelétrico do globo. Características físicas como preponderância de planícies e aspectos ambientais dificultam a instalação de hidrelétricas. Diversas pessoas defendem a implantação de usinas para aumentar a produção energética do Brasil, inclusive pesquisadores que indicam por meio de estudos de impacto ambiental a possibilidade de causar pouca alteração nas áreas onde poderiam ser construídas as hidrelétricas.

   Uma das sub-bacias estudadas é a do Rio Xingu, onde pesquisas apontavam, desde a década de 1970, a construção de várias usinas hidrelétricas, entre elas a de Belo Monte. Na primeira metade dos anos de 1990, a população indígena, apoiada por ambientalistas, protestou contra a Belo Monte, forçando mudanças no projeto, como a redução da área alagada para evitar a perda de terras indígenas e a minimização dos impactos socioambientais.

Em destaque área onde será construída a usina de Belo Monte - Fonte: Educacional

Em destaque, Volta Grande do Rio Xingu, área onde será construída a usina de Belo Monte - Fonte: Educacional

   Algumas décadas e muitos debates depois, em 2008, o Conselho Nacional de Política Energética indicou Belo Monte como forma de exploração hidroenergética do Rio Xingu. No início de 2010, o Ministério do Meio Ambiente, por meio do Ibama, liberou a implantação de Belo Monte e, em abril, foi realizado um leilão para escolher as empresas que teriam a concessão para construir a usina.

Volta Grande do Rio Xingu. Fonte: Nasa

Volta Grande do Rio Xingu. Fonte: Nasa

   Segundo o governo federal, a usina de Belo Monte deverá estar produzindo já em 2015, gerando mais de 40 mil empregos diretos e indiretos durante as obras e, após iniciar a produção, beneficiará aproximadamente 25 milhões de brasileiros, diminuindo os riscos de apagão energético nos próximos anos. Os custos da obra estão estimados em R$ 19 bilhões, com capacidade instalada de produção de 11.233 MW, tornando-se a terceira maior do mundo, atrás apenas de Três Gargantas, na China, e de Itaipu, na fronteira Brasil-Paraguai (veja quadro comparativo).

Fonte: Itaipu Binacional

Fonte: Itaipu Binacional

 

Vista aérea da usina Binacional de Itaipu. Foto: José Murilo Junior. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Vista aérea da usina Binacional de Itaipu. Foto: José Murilo Junior. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Usina de Três Gargantas no Rio Yang-Tzé. Foto Hugh. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Usina de Três Gargantas no Rio Yang-Tzé. Foto Hugh. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

   A nascente do Rio Xingu está localizada em Mato Grosso no Parque Indígena do Xingu. Belo Monte será instalada na região conhecida como Volta Grande do Rio Xingu, já no baixo curso, próximo à foz no Rio Amazonas.

Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso. Foto: Ollie Harding. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso. Foto: Ollie Harding. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

   Ambientalistas criticam a construção da barragem, alegando que os problemas socioambientais não compensariam a obra. Entre os aspectos negativos, são apontados: alteração no volume e na oferta de água a jusante da barragem, prejudicando a população ribeirinha e os povos indígenas que dependem do rio para o transporte, para fornecimento de água e da pesca; alteração da flora e da fauna da área atingida; além dos problemas para municípios próximos à foz do Xingu. Ainda, questionou-se a quantidade de energia gerada, devido à grande variação do volume do Rio Xingu ao longo do ano, chegará a produzir menos de 40% da capacidade nos períodos de estiagem.

Poluição no Rio Xingu em Altamira, PA. Foto: Avidd. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

Poluição no Rio Xingu em Altamira, PA. Foto: Avidd. Licenciado pelo Creative Commons, atribuição 2.0 Genérica.

    Entre prós e contras, entre idas e vindas, o certo é que a construção da usina deve ter início em breve… O que resta a todos os envolvidos é estarem atentos aos acontecimentos, controlando recursos, estudando impactos e lutando para que os problemas sejam bem menores que os benefícios que a usina poderá trazer para a região.

Para saber mais, utilize a ferramenta de Pesquisa escolar do portal! Digite “Usina de Belo Monte

Por: Claudio Lopes Takayasu

El Niño e La Niña — Chuvas e enchentes na Região Nordeste do Brasil

Complementando o post anterior sobre as enchentes na Região Nordeste…

   O fenômeno natural El Niño, que provoca aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, modificando os padrões climáticos em todo o planeta, perdeu força no início de 2010, dando lugar ao fenômeno La Niña (”a menina”, em espanhol).

   Menos conhecido da população em geral, o La Niña também causa mudanças climáticas temporárias em escala global, alterando a circulação e o transporte de calor e de umidade em vários pontos do planeta. Ao contrário do El Niño, o La Niña apresenta o resfriamento da camada superficial das águas do Pacífico tropical.

   Ambos os fenômenos são responsáveis por eventos climáticos extremos no mundo, e no Brasil alteram os padrões pluviométricos, provocando longos e intensos períodos de estiagem e/ou precipitação em forma de tempestades com grandes volumes de chuva em períodos curtos de tempo. Assim como o El Niño, o La Niña ocorre em intervalos de 2 a 7 anos, com duração de, aproximadamente, 9 a 12 meses. Por outro lado, as alterações de temperatura no Pacífico ou TSM (temperatura da superfície do mar) são diferentes: em anos de La Niña, a TSM sofre queda de 1 a 2ºC enquanto em eventos de El Niño a TSM aumenta, em média, de 4 a 5ºC.

Veja as principais alterações provocadas no Brasil:

Região

El Niño

La Niña

Consequências básicas

Norte

Menor precipitação / secas / incêndios

Aumento da precipitação e do volume de água dos rios

Nordeste

Longos períodos de forte estiagem

Aumento da precipitação / elevação da vazão dos rios

Centro-Oeste

Tendências de chuvas acima da média e pequena elevação das temperaturas

Sem grandes alterações

Sudeste

Pequena elevação nas temperaturas médias no inverno

Sem grandes alterações

Sul

Aumento das temperaturas médias e dos índices pluviométricos

Longos períodos de estiagem

Principais alterações globais:

El Niño - Fonte: CPTEC

El Niño - Fonte: CPTEC

El Niño - Fonte: CPTEC

El Niño - Fonte: CPTEC

La Niña - Fonte: CPTEC

La Niña - Fonte: CPTEC

La Niña - Fonte: CPTEC

La Niña - Fonte: CPTEC

   Assim, o inverno, que é uma estação do ano tradicionalmente chuvosa no Nordeste brasileiro, está sofrendo pelo acúmulo de eventos naturais que ocorrem simultaneamente. O período das chuvas está sendo agravado pelo aquecimento anormal das águas do Atlântico tropical - de aproximadamente 1,5ºC - e pela chegada do La Niña, que deve aumentar sua influência ao longo do inverno. Segundo informações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a consolidação do fenômeno deve manter um volume um pouco maior de chuvas durante os meses de julho e agosto.

   Agora é torcer para que os eventos tenham menor intensidade e, principalmente, não provoquem mais destruição!

   Para mais informações acesse o site do CPTEC - Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos.

   Visite o Blog de Biologia que trata das doenças relacionadas às enchentes.

Por: Claudio Lopes Takayasu

Chuvas em Alagoas e Pernambuco — Um “tsunami” na Região Nordeste do Brasil

   Quem viu as imagens de cidades alagoanas e pernambucanas destruídas pelas chuvas nos últimos dias do mês de junho, provavelmente lembrou do desastre provocado pelo tsunami que atingiu a região da Indonésia em dezembro de 2004, deixando mais de 174.000 mortes confirmadas. É claro que, diferentemente das causas do desastre no Oceano Índico, um sismo com epicentro no fundo do oceano, na Região Nordeste as causas são as cheias de rios na Zona da Mata nordestina, causadas pelo excesso de chuvas na região.

Municípios alagoanos foram devastados. Foto Antonio Cruz/ABr

Municípios alagoanos foram devastados. Foto Antonio Cruz/ABr

   Até o dia 23 de junho já haviam sido contabilizadas 44 mortes em toda a região atingida, mais de 600 pessoas estavam desaparecidas e aproximadamente 115 mil estavam desabrigadas devido às chuvas. Algumas cidades alagoanas como União dos Palmares foram levadas pelas águas. O Rio Mundaú avançou cerca de 60 km de seu leito normal, destruindo casas, prédios e toda a infraestrutura da cidade. Segundo levantamentos das defesas civis dos dois estados, pelo menos 74 cidades foram atingidas pelas enchentes. De acordo com dados do governo alagoano, mais de 11.500 casas foram destruídas no estado.

Cidades inteiras foram levadas pela água. Foto: Antonio Cruz/ABr

Cidades inteiras foram levadas pela água. Foto: Antonio Cruz/ABr

Poucas construções resistiram. Foto: Antonio Cruz/ABr

Poucas construções resistiram. Foto: Antonio Cruz/ABr

   Além do problema imediato causado pelas chuvas e, consequentemente, pelas enchentes, seus reflexos - a reconstrução de toda infraestrutura (prédios públicos, centrais elétricas, malha viária, etc.), a reestruturação de casas e do comércio, as doenças como leptospirose, diarreias, o aumento de focos de dengue, entre outros - serão sentidos por meses e até anos.

A reconstrução levará meses. Foto: Antonio Cruz/ABr

A reconstrução levará meses. Foto: Antonio Cruz/ABr

   Mas… e essas chuvas? São “normais” na região? Havia como prever tal fato? Foi apenas uma fatalidade ou existe explicação científica para o desastre? Isso voltará a acontecer? Analisando conceitos científicos, buscaremos respostas a essas questões.

   A costa brasileira sofre influência - comum em áreas litorâneas - de brisas marítimas e terrestres cujo mecanismo de inversão entre o dia e a noite (aquecimento e resfriamento) provoca chuvas diárias e de curta duração. A Região Nordeste do país sofre influência das correntes marítimas quentes - item 5.2 -  (Corrente do Brasil e Corrente Sul-Equatorial) que se deslocam para oeste a partir do continente africano trazendo ainda mais umidade para a costa brasileira.

   O litoral nordestino é uma área de ocorrência comum de ventos de sudeste úmidos que provocam grande pluviosidade entre os meses de abril e julho. Porém, todos os fatores “normais” de circulação atmosférica e correntes marinhas do Nordeste brasileiro podem ser associados às perturbações ondulatórias dos alísios (POA) - alísios são tipos de ventos permanentes influenciados pelo movimento de rotação da Terra e fazem parte da circulação geral da atmosfera -, aumentando a pluviosidade na região.

Chuva orográfica ou de relevo - Fonte: DBK Multimidia/Positivo Informática

Chuva orográfica ou de relevo - Fonte: DBK Multimidia/Positivo Informática

   As perturbações ondulatórias dos alísios (POAs) são originadas pela chegada de sistemas frontais vindos do sul, relacionadas às frentes frias (massa polar atlântica - mPa). Dependendo da intensidade das POAs, podem ocorrer períodos extremos de chuvas com volumes pluviométricos de semanas concentrados em apenas 24 horas, por exemplo.

   A grande destruição na Zona da Mata de Pernambuco e Alagoas foi causada pelo aquecimento anômalo das águas do Atlântico Equatorial Sul, pelos ventos alísios de sudeste e pela entrada de uma massa de ar polar de grande intensidade. Ao se deslocar para o litoral nordestino, a massa de ar polar encontra as temperaturas mais elevadas das águas do Atlântico, formando nuvens que são “empurradas” para o continente. Como essas nuvens estão mais carregadas que em situação “normal”, provocam chuvas intensas com longa duração. Assim, o grande volume de chuvas concentrado em curto período de tempo eleva rapidamente o nível dos rios da Zona da Mata nordestina, que saem de seu leito chegando às áreas de várzea onde, como em muitos lugares do Brasil, ocorreu uma ocupação desordenada com a criação de cidades.

   Vários fatores naturais associados foram responsáveis pelo aumento das chuvas e pela ocorrência das enchentes, porém a ocupação de áreas de risco (leito de inundação ou leito maior) potencializou o desastre com perda de vidas humanas.

Cenas de destruição no Nordeste do país. Foto: Antonio Cruz/ABr

Cenas de destruição no Nordeste do país. Foto: Antonio Cruz/ABr

   Dessa forma podemos afirmar que foi um “desastre anunciado”… Eventos naturais extremos como chuvas torrenciais, vendavais e enchentes, são claramente inevitáveis. Já a ocupação das áreas de várzea é secular, e ocorreu muito antes de existirem estudos de risco e impacto ambiental. As cidades tiveram seu desenvolvimento às margens dos rios, de onde eram retirados alimento e água para a sobrevivência. Enchentes naturais de grande volume são inundações que podem ocorrer em períodos de 25 ou 30 anos, porém enchentes de menor proporção são verificadas anualmente. Com isso, as ações para evitar ou minimizar os problemas deveriam ter começado há muito tempo, sendo necessário conscientização da comunidade e, principalmente, dos gestores públicos para o planejamento e adequação do uso e ocupação do solo, além da gestão da água e dos recursos naturais. Ou seja, é necessário, em caráter de urgência, priorizar o planejamento e a prevenção desse tipo de desastre, diminuindo os prejuízos e perdas de vidas, além da ação preventiva custar menos que a ação de recuperação. É preciso recuperar a mata ciliar, criar comitês de bacias hidrográficas, deslocar a população mais próxima do leito principal do rio, delimitando o perímetro de inundação, evitar novas ocupações, elaborar planos diretores para todos municípios, entre outras medidas, para que grande parte da população nordestina, principalmente a mais carente, não fique à mercê da própria sorte, dependendo de “ajuda” (como se dependessem de favores) dos governos municipais, estadual e federal.

   Ao menos, em momentos assim, conseguimos perceber a força da solidariedade do povo brasileiro que, como já aconteceu em outros desastres (deslizamentos no Rio de Janeiro, enchentes em Santa Catarina…), estão se mobilizando para ajudar a população atingida com doações de alimentos não perecíveis, água potável, roupas, colchões e tudo mais que pode minimizar o sofrimento na região.

Leia a entrevista onde a Profª Olga Lira, moradora de Recife, fala sobre o drama vivido no Nordeste brasileiro.

Por: Claudio Lopes Takayasu